Ameaças existenciais entre a realidade e a descrença
O que você faria se o seu país tivesse data para acabar e muitas pessoas dissessem que o seu problema não existe?
A pergunta parece brutal, mas descreve o ponto central da Plenária de Alto Nível para Enfrentar Ameaças Existenciais realizada na sede das Nações Unidas, no final do mês de setembro. Líderes mundiais se reuniram para discutir o aumento do nível dos oceanos e como isso tem impactado o direito de existir de centenas de povos ao redor do mundo.
Logo na abertura, o secretáriogeral António Guterres advertiu que o mundo enfrenta “a hora da verdade”, diante de riscos que se acumulam e se aceleram, enquanto a capacidade coletiva de resposta parece diminuir. Ele lembrou que o nível do mar subiu 5,9 mm em 2024, resultado que representa o maior aumento já registrado.
Muitas pessoas imaginam que o aumento do nível dos oceanos se dá pelo derretimento das calotas polares, e embora isso seja parcialmente verdade, a maior parte do aumento vem na realidade do aumento de volume da água líquida já existente. Quem se lembra dos tempos de física na escola, provavelmente recordará do coeficiente de dilatação volumétrica, medida que representa o montante que o volume de um líquido expande para cada variação de 1ºC na temperatura.
No caso da água, esse valor é de 0,013%. Parece pequeno, mas quando comparamos ao montante de água existente nos oceanos (1,335 bilhão de quilômetros) obtemos um volume de 173 mil quilômetros cúbicos de água. Um número tão grande que é difícil imaginar, então para transformarmos em algo mais palpável, se considerarmos a área global dos oceanos igual a 361 milhões de km2, estamos falando num crescimento de 48cm no nível do mar a cada 1ºC de alteração. Isso significa que 39 países insulares podem simplesmente deixar de existir ou terem grande parte do seu território tomado pelo Oceano.
Para nós esses são apenas dados estatísticos, mas para milhares de pessoas, significa literalmente ter um prazo para desaparecer. Não estamos falando apenas de não ter terra para morar, estamos falando de impossibilidade de produzir alimentos ou obter água potável. Por exemplo, Bangladesh possui regiões costeiras densamente povoadas que produzem mais de 30% dos alimentos do país.
Mas enquanto comunidades inteiras lutam para manter sua existência, parte da humanidade insiste em afirmar que “não é tão grave assim”, transformando a descrença em uma arma letal apontada para 39 países e centenas de milhares de pessoas.
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