Capitalismo Consciente

A conta não fecha sem cultura consciente

Não há negócio sustentável apoiado em pessoas exaustas
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Pense na Ana, um nome qualquer para tantas histórias reais. Ela chega às oito, sorri na reunião, entrega as metas e ninguém percebe que não dorme bem há semanas. Até o dia em que simplesmente não vem. Ana não é exceção. Ana é estatística.
Em 2025, o Brasil concedeu 546.254 afastamentos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por transtornos mentais, alta de 15% em um ano e novo recorde. Quase dois em cada três foram de mulheres. Entre 2019 e 2025, esses afastamentos cresceram 159%, mais que o dobro do avanço do total de licenças. E os números só contam quem ficou fora mais de 15 dias. O sofrimento que cabe em atestados curtos segue invisível nas planilhas.

Em Minas, há um detalhe que merece pausa. Levantamento da VR, empresa de benefícios e soluções de RH, com atestados de mais de 75 mil empresas entre janeiro e julho de 2026, mostra que os mineiros somam 11,4% dos atestados de saúde mental, mas 12,9% dos dias de ausência. Aqui, adoecemos por mais tempo. No total do estudo, foram quase 1 milhão de horas não trabalhadas em sete meses.

Agora, faça as contas. Uma empresa pode bater a meta do trimestre e, ao mesmo tempo, consumir as pessoas que a sustentam. O lucro aparece no balanço; o desgaste, não. Até o dia em que aparece em forma de afastamento, rotatividade, talentos perdidos e clientes mal atendidos. Essa conta não fecha.

O cenário global confirma. O relatório State of the Global Workplace 2026 (em português, Estado do Ambiente de Trabalho Global), da Gallup, mostra que só 22% dos gestores no mundo estão engajados e estima em US$ 10 trilhões o custo do baixo engajamento. Mas há um dado que acende esperança: nas organizações com melhores práticas, 79% dos gestores estão engajados. Não é destino. É escolha de gestão e de liderança.

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) está em vigor desde 26 de maio e obriga as empresas a gerenciar os riscos psicossociais. O Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu as multas temporariamente, mas a obrigação permanece. E aqui mora o teste mais revelador do capitalismo consciente: o que uma empresa faz quando ninguém está cobrando?

Cultura consciente não é ação pontual em mês de campanha. É a forma como as metas são definidas, como os conflitos são conduzidos, como o líder escuta e se o erro pode ser dito em voz alta sem medo. É segurança psicológica traduzida em rotina. Empresas que tratam isso como estratégia, e não como custo, protegem o ativo mais difícil de repor: gente inteira, presente, criativa e engajada.

Saúde e sustentabilidade não são agendas paralelas. Não existe negócio sustentável apoiado em pessoas exaustas.
Deixo a pergunta que todo conselho e que todo dono de empresa deveria levar à próxima reunião: se a sua empresa fosse avaliada hoje, ela apresentaria um documento ou uma cultura?

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Shirley Stark
Sobre o autor

Shirley Stark

Mãe da Cecília | Aceleradora de Pessoas e Negócios Integrais | Mentora de Líderes e Empreendedores Conscientes | Facilitadora de Diálogos Transformadores e de Performance Sustentável


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