Carnaval, cerveja e diversão: por que ‘Todos por Todas’ precisa ir além do pacto
Hoje é Carnaval e a maior festa popular brasileira volta a ocupar ruas, avenidas e imaginários. Para muitos, é tempo de alegria, liberdade e celebração. Para milhões de mulheres, no entanto, é também tempo de alerta, estratégia e autoproteção. O que deveria ser expressão coletiva de liberdade frequentemente se converte em um território onde o assédio é naturalizado, relativizado ou tratado como parte da “brincadeira”. Não é o Carnaval que é violento — é a cultura que, historicamente, tem autorizado a violência contra o corpo feminino.
Nesse contexto, o recente Pacto Brasil, firmado pelos três poderes para o enfrentamento ao feminicídio, surge como um marco político importante. Sob o lema “Todos por Todas”, a iniciativa convoca os homens a assumir seu papel como aliados na transformação de uma realidade que já ultrapassa o campo da segurança pública e se configura como uma epidemia social. O feminicídio não é um evento isolado — é o ponto extremo de uma cadeia contínua de desvalorização, controle e desumanização das mulheres.
Mas é preciso dizer com clareza: leis são fundamentais, pactos são necessários, campanhas são urgentes — e, ainda assim, não bastam. O Brasil foi estruturado simbolicamente sobre um tripé poderoso: Carnaval, mulher e futebol. Em torno dele, consolidou-se uma narrativa cultural que historicamente posicionou a mulher como objeto, espetáculo e território público. No Carnaval, a objetificação ganha licença festiva, e vemos se perpetuar uma cultura que normaliza o desrespeito e banaliza a
violência.
O feminicídio não começa no crime — começa na cultura. E é por isso que nenhuma legislação, isoladamente, será capaz de produzir a mudança que precisamos. A lei pune o ato, mas é a cultura que forma o comportamento. Sem educação emocional, sem revisão dos pactos masculinos, sem formação de meninos para o cuidado, o respeito e a corresponsabilidade, continuaremos atuando apenas nas consequências, nunca nas causas. “Todos por Todas” precisa ser mais do que um lema institucional —
precisa se tornar prática cotidiana. Ser aliado é não silenciar diante do assédio, é interromper a violência simbólica, é educar outros homens, é rever privilégios e romper o pacto histórico de conivência masculina. A violência contra a mulher não é um problema das mulheres — é um problema da sociedade.
E você? Já pensou como vai comemorar o carnaval de 2026? Convido a todos e a todas a irem para as ruas fantasiados de respeito e de empatia, lembrando que “não é não”! E caso você presencie algum episódio de violência, ajude e acolha. Proteger mulheres não é um gesto de ocasião — é um projeto que deve se tornar permanente no nosso país.
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