Por que ainda precisamos celebrar o Dia Internacional das Mulheres?
O Dia das Mulheres é, sem sombra de dúvidas, o período do ano em que eu estabeleço a maior quantidade de interações e conversas com diferentes segmentos do universo corporativo. Desde propostas comerciais, palestras, rodas de conversa até solicitação de artigos, textos para colunas, etc.
E as perguntas que rondam essa data permanecem as mesmas: ainda faz sentido celebrar o Dia das Mulheres? Posso dar parabéns? Posso comprar bombom? Qual o tipo de presente devo dar?
Sendo assim, preparei a coluna dessa semana, para tentar sanar um pouco das dúvidas que ainda são recorrentes neste ecossistema.
As mulheres e o mundo corporativo
A histórica assimetria que afastou as mulheres do espaço público continua a se reproduzir no ambiente das empresas. Somos mais interrompidas em reuniões, mais cobradas quando ocupamos posições de liderança, mais expostas a assédios e ainda responsáveis, majoritariamente, pelo equilíbrio entre demandas profissionais e o trabalho de cuidado. Mesmo com maior qualificação educacional — hoje somos maioria na graduação e na pós-graduação — isso não se traduz automaticamente em representatividade, oportunidades ou igualdade salarial.
No Brasil, mulheres são 52% da população. Movimentam a economia, lideram lares, tomam decisões de consumo. Ainda assim, apenas uma pequena parcela das empresas é liderada por mulheres e a presença feminina em conselhos de administração segue tímida. O paradoxo é evidente: estudos internacionais apontam que o avanço da igualdade de gênero poderia adicionar trilhões de dólares à economia global.
Se igualdade gera crescimento, por que avançamos tão lentamente?
Os entraves são culturais. Pesquisas mostram que a maioria das pessoas, homens e mulheres, ainda sustenta crenças de que homens seriam líderes políticos e executivos mais competentes. As organizações seguem sendo, em grande medida, ambientes desenhados por homens e para homens. A chamada coesão de grupo ajuda a explicar essa lógica: tende-se a promover e confiar em quem é semelhante. E assim se perpetuam estruturas pouco diversas.
Mulheres são atravessadas por barreiras invisíveis, como o “teto de vidro” e o “labirinto de cristal”: vê-se o topo, mas não se alcança. E também pelo “degrau quebrado”: muitas mulheres sequer conseguem dar o primeiro passo rumo à gerência. A maternidade ainda é vista como obstáculo; a falta de flexibilidade e de políticas equitativas reforça a exclusão. Quando olhamos pelo recorte interseccional, a desigualdade se aprofunda: mulheres negras permanecem concentradas nos trabalhos mais precarizados, especialmente no cuidado e no emprego doméstico. O último relatório do Women in the Workplace, ano 2025, revela um dado alarmante: as mulheres estão desistindo das suas carreiras não por falta de ambição, mas por excesso de dificuldade em seguir.
A disparidade de gênero permanece e, se nada for feito, estimativas globais indicam que levaremos mais de um século para fechar essa lacuna. Ou seja, a jornada em prol da equidade não é um movimento natural, mas sim um caminho de muita luta e que exige intencionalidade.
Há caminhos possíveis: planos de cargos e salários igualitários, critérios objetivos de promoção, políticas de licença parental compartilhada, metas atreladas à liderança, programas de letramento social e revisão profunda da cultura organizacional.
Algumas empresas já avançam nesse sentido, mas ainda são exceção.
Portanto, celebrar o 8 de março não é reforçar uma data simbólica esvaziada. É lembrar que direitos não foram concedidos — foram conquistados. E que representatividade isolada não basta. Não haverá liberdade real enquanto todas as mulheres — independentemente de raça, classe, território ou orientação — não tiverem condições concretas de progredir.
O Dia Internacional das Mulheres permanece, portanto, como um marco de memória e mobilização. Um lembrete de que igualdade de gênero não é pauta identitária: é pauta econômica, social e civilizatória. E, sobretudo, um compromisso coletivo com a transformação das estruturas que ainda insistem em nos limitar.
E sobre dar parabéns e bombons…. pode sim (desde que não se limite a isso)! A questão central aqui não é sobre dar parabéns ou bombons no dia 08 de março, mas o que você irá fazer pelas mulheres da sua empresa os outros 364 dias do ano.
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