Inflação fora da meta
O tema da vez no mercado voltou a ser a desancoragem das expectativas de inflação. Assunto que, inclusive, já abordei neste espaço. Ainda assim, trata-se de um ponto que merece atenção redobrada, dada sua capacidade de influenciar a trajetória dos juros no Brasil.
Os observadores mais atentos devem ter notado, sobretudo a partir dos dados do relatório Focus, um afastamento persistente e disseminado das projeções para o IPCA em relação à meta estabelecida para o índice. Para este ano, por exemplo, a mediana das expectativas já escalou para 4,36%, marcando a quarta alta consecutiva nas estimativas de mercado. Esse movimento também se repete nos horizontes de 2027 e 2028, reforçando a percepção de que o mercado passou a duvidar de uma convergência plena da inflação no curto e médio prazo.
O perigo desse fenômeno reside no fato de que as expectativas de inflação funcionam como uma profecia autorrealizável. Quando empresas, trabalhadores e famílias deixam de confiar na meta, eles passam a incorporar essa descrença em suas decisões cotidianas: preços são remarcados preventivamente, reajustes salariais tornam-se mais agressivos e o consumo é antecipado. Esse mecanismo cria uma “inflação contratada”, cuja intensidade ainda é desconhecida, mas cujos efeitos já começam a se propagar pelas cadeias produtivas através de insumos críticos como petróleo, fertilizantes e energia.
Mais preocupante do que o nível atual das projeções é a percepção de que o mercado passou a “normalizar” esses desvios. Desde 2021, as expectativas longas têm se mantido sistematicamente acima do alvo, sugerindo que o retorno à meta deixou de ser visto como um compromisso inegociável da autoridade monetária. Em um regime de metas, tratar o excepcional como padrão é um sinal de alerta máximo, pois eleva o custo futuro de qualquer tentativa de estabilização. O Brasil enfrenta esses choques globais em uma posição de vulnerabilidade, sem ociosidade econômica e sem uma âncora fiscal que ofereça o suporte necessário para ancorar a confiança dos agentes. Isso abre espaço para o questionamento clássico de que o problema pode não estar na nossa capacidade de controlar essa dinâmica e sim no fato de que tal meta pode ser ambiciosa demais para nossa estrutura.
Nesse contexto, a comunicação do Banco Central torna-se uma ferramenta tão importante quanto a própria taxa de juros. Não basta apenas observar a inflação corrente, é preciso reagir com firmeza às expectativas que fogem ao controle. A autoridade monetária precisa eliminar ambiguidades que possam sugerir qualquer nível de tolerância com desvios persistentes. Se a narrativa de que a inflação é um fenômeno meramente externo ou inevitável prevalecer, corremos o risco de consolidar um ambiente de preços permanentemente elevados, minando o crescimento sustentável e a previsibilidade necessária para o desenvolvimento do país.
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