A tecnologia e a sala de aula
A tecnologia é um rápido impulsionador de mudanças culturais. Quem já precisou decorar os números de telefone dos amigos, localizar uma rota em um mapa de papel do Guia 4 Rodas ou consultar uma matéria para um trabalho de escola em enciclopédias como a Barsa, sabe a diferença brutal que é fazer essas mesmas atividades com o telefone celular, o Waze e o ChatGPT. Produtos, mercados e até profissões foram esquecidas no tempo, a exemplo do acendedor de lampiões ou da fábrica de máquinas de escrever.
A tecnologia também impactou a sala de aula tradicional, embora em alguns aspectos aparentemente de forma mais tímida. Aquela imagem de um professor na frente, alunos sentados em fileiras e aulas expositivas são a estrutura básica de uma sala de aula como conhecemos pelo menos desde a idade média, mas há algum tempo a caixinha de giz e o apagador foram substituídos pelas apresentações de ppt, aulas síncronas a distância e até aulas assíncronas, já gravadas. Entretanto, a maior mudança que a tecnologia traz não está necessariamente nas metodologias de ensino, mas sim no perfil dos alunos que chegam nas escolas.
O aluno(a) de hoje é muito mais conectado e tem mais informações do que na época que me formei na faculdade, no início da era da internet, aprende em múltiplas plataformas, espera mais interação e tem baixa tolerância a aulas puramente expositivas. Tem literalmente o mundo na palma da mão, na forma de um smartphone com acesso a internet e mais recentemente incrementado por IA’s.
A tecnologia já está embarcada na sala de aula e principalmente faz parte da vida de milhares de estudantes. Recentemente, houve uma grande discussão sobre o uso do celular em cursos de Graduação, hoje já proibido nas escolas de ensino fundamental e médio. Argumentos existem nos dois sentidos: ao mesmo tempo que estudos mostram que o uso de dispositivos eletrônicos diminui a concentração dos alunos, há quem argumente que essas tecnologias podem maximizar a aprendizagem.
Independente do argumento técnico, como dizia o filósofo Nietzsche: “Não existem fatos, apenas interpretações.” No meu entendimento, a escola tem múltiplas atribuições no contexto de educação, que vão além da questão conteudista. A escola forma caráter, ensina a viver em comunidade, desenvolve cidadãos. No caso específico da Graduação, deveria preparar os jovens para um mercado de trabalho que não vai falar quando usar ou não o celular é adequado, como é se portar ou como interagir com os colegas. A Graduação deve formar profissionais para o mercado de trabalho e não alunos para o ensino fundamental e médio. Em última instância, precisamos tratar adultos como adultos. Senão, quem vai tutorear essa geração quando não estivermos mais por aqui?
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