Extrato futuro: um controle que olhe para frente
Quando o assunto é planejamento financeiro, gosto de repetir que a planilha aceita tudo. Porém, o que garante que aquilo que desenhamos nela aconteça na vida real é uma boa estratégia de controle de gastos. E, para mim, uma boa estratégia é aquela que considera que somos humanas – e que planejamento se faz olhando para a frente, não apenas para o rastro deixado pelo mês.
Vale a reflexão: quantas vezes “planejar as finanças” significou sentar e anotar o que já foi gasto? O problema dessa abordagem é que se já estouramos o limite, não há muito o que fazer além de lamentar e torcer para que o próximo mês venha melhor. Assim, seguimos período após período, repetindo o rito como quem vira páginas de um livro que insiste em contar sempre o mesmo capítulo.
Um método que pode ajudar é o dos quadrantes – ou extrato futuro. A ideia é simples: dividimos o mês em quatro semanas e distribuímos entradas e saídas conforme as datas previstas de cada uma. Cada quadrante é uma semana e, com todos desenhados, conseguimos prever o saldo da conta no início e no fim de cada semana, criamos uma visão mais organizada do mês e, principalmente, ganhamos tempo para agir antes que o problema apareça.
Para que o método dos quadrantes funcione, é preciso reservar cerca de dez minutos no fim de cada semana para comparar o planejado com o saldo real em conta. Na prática, essa visualização pode ser organizada de forma simples. Trago um exemplo. Na primeira semana do mês, do dia 1º ao dia 8, o saldo inicial parte de zero. Com a entrada do salário líquido de R$ 5.000, somam-se as despesas já previstas: a reserva financeira de R$ 300, o condomínio de R$ 600, a energia de R$ 120, o gás de R$ 40, a internet de R$ 100, o telefone de R$ 40, a compra do mercado estimada em R$ 700 e a fatura do cartão referente aos serviços de streaming, de R$ 129. Soma-se ainda a média de gastos variáveis da semana, de R$ 500. Feitas as contas, o saldo final previsto nesta primeira etapa fica em R$ 2.471.
Na segunda semana, de 9 a 15, o saldo inicial projetado é justamente esse valor de R$ 2.471. Deduzindo-se a média semanal de gastos variáveis, estimada novamente em R$ 500, o saldo final previsto ao término dessa semana deve ficar em torno de R$ 1.971. E assim se segue. Esse acompanhamento permite corrigir rotas rapidamente, não se trata de motivo para culpa, mas de um convite para entender o que fugiu do plano e ajustar os gastos nas semanas seguintes.
Alguns pontos importantes nos quadrantes: o aporte da reserva aparece logo depois do salário pingar. Isso não é à toa. Sonhos precisam vir antes dos boletos, ou caímos no velho golpe do “se sobrar eu junto este mês”. Sabemos como essa história acaba.
Outra estratégia de controle é concentrar os boletos fixos nos primeiros dias. Assim, evitamos surpresas no meio do caminho e, no restante do mês, focamos nos gastos variáveis – os pequeninos (lazer, transporte, alimentação, cafezinho) que vão aparecendo como o miolo do mês. Quando colocamos esse método em prática, o caos do mês ganha contorno.
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