Inovação em Pauta

Recurso para inovar existe. Faltam projetos e pessoas

Prorrogação da chamada de semicondutores da Finep e alerta do Banco Mundial sobre qualificação digital mostram que o gargalo da inovação brasileira deixou de ser financeiro
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Duas notícias recentes, lidas em conjunto, dizem muito sobre o momento da inovação no Brasil. A primeira: a Finep prorrogou até 25 de novembro a chamada Mais Inovação Rodada 2 Semicondutores, com R$ 100 milhões em subvenção econômica. Às vésperas do prazo original, havia apenas seis propostas em análise. A segunda: estudo do Banco Mundial apresentado no SECOP 2026 indica que somente 4% dos brasileiros possuem habilidades digitais avançadas.

O paradoxo é evidente. O país importou US$ 2,66 bilhões em semicondutores entre janeiro e abril de 2026, alta de 36% sobre o mesmo período de 2025, e o governo federal investirá cerca de R$ 1 bilhão em um supercomputador de inteligência artificial. Ainda assim, uma chamada não reembolsável de R$ 100 milhões precisou de mais prazo para atrair empresas. O recurso existe. O que falta é capacidade de transformar demanda tecnológica em projeto estruturado e gente qualificada para executá-lo.

A segunda rodada do Mais Inovação mobilizou R$ 3,3 bilhões em recursos não reembolsáveis, distribuídos em 13 editais. Subvenção, porém, não é prêmio para boa ideia. Exige risco tecnológico demonstrado, maturidade tecnológica compatível, equipe dedicada, parceria com ICT e contrapartida financeira. Empresas que só começam a pensar no projeto quando o edital é publicado chegam atrasadas.

Dinheiro para inovação
Foto: Convergência Digital

Para Minas Gerais, o recado é direto. Duas oportunidades seguem abertas e conversam com a vocação do estado: Semicondutores, até 25 de novembro, com participação obrigatória de ICT, e Transformação Mineral, até 30 de novembro, com R$ 215 milhões. Já as principais chamadas estaduais para empresas, como o Compete Minas, encerraram seu ciclo. Isso não é motivo para pausa, e sim para preparação: mapear desafios tecnológicos, documentar o estágio de maturidade das soluções e aproximar-se de universidades e centros de pesquisa antes da próxima janela.

A qualificação de pessoas precisa entrar no orçamento de inovação como item estratégico, não como custo acessório. Programas de inserção de pesquisadores em empresas, como o RHAE do CNPq e as modalidades de pesquisador na empresa das fundações estaduais, ainda são subutilizados e atacam exatamente o gargalo apontado pelo Banco Mundial.

O Brasil vive um ciclo raro de disponibilidade de recursos para inovação. O risco agora não é a falta de dinheiro, mas o dinheiro sem destino qualificado. Oportunidade que não se converte em tecnologia nacional vira importação. Inovar, em 2026, é sobretudo uma questão de preparo.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Janayna Bhering

Engenheira, mestre em Ciência e Tecnologia, doutoranda em inovação, com mais de 20 anos de experiência na concepção, estruturação e execução de projetos inovadores em diferentes setores da economia. Especialista em fomento e captação de recursos


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