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A Terça Parte da Noite: o horror histórico polonês e a nossa voluntária marcha para o abismo

Conheça a fascinante história de Andrzej Żuławski e os filmes que marcaram sua carreira
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Nada disso teria acontecido se eu não tivesse ficado no escritório até tarde da noite, escaldado de pré-verão e folheando um velho almanaque de filmes da Abril. Tudo ia em paz até eu tropeçar em um verbete sobre Andrzej Żuławski, cineasta polonês falecido em 2016, dos mais sérios e prolíficos de sua terra natal, cujo único filme de sua curta carreira inicial me escapara num surpreendente hiato. Ou seja: eu nunca o encontrara na draconiana era dos VHS de locadora, tampouco nos Blu-rays gringos recentes; e, salvo engano, ele jamais deu as caras na TV, nem mesmo nas franjas mais audaciosas da programação pública. Até para a antiga TV Cultura, a exibição seria uma excentricidade.

O filme só viria a aportar em DVD no Brasil há alguns anos, fui saber, abrigado numa coleção flanqueada de outras obras do diretor e de tiragem limitadíssima. Trata-se de A Terça Parte da Noite (1971).

Decidi que o veria a qualquer custo. Comecei pelo óbvio, a distribuidora nacional, a Versátil, mas levei o clássico tombo digital: “Tiragem Esgotada. Assine nossa newsletter ou avise-me quando o produto estiver disponível”. Usando de meus dotes bucaneiros numa caçada obsessiva madrugada afora, acabei aportando em um antigo repositório de telefilmes eslovacos, curtas lituanos e obras experimentais ucranianas. Bingo. Um verdadeiro refúgio para desajustados da sétima arte.

Fica então a pergunta inútil, mas inevitável: quantos de meus vizinhos do bairro Santo Antônio e áreas limítrofes terão sentido a tentação de renunciar à dopaminérgica rolagem de tela de suas redes – ou à taça solitária de tinto diante de uma série requentada – para assistir a um obscuro thriller político setentista? Um filme que acompanha as desventuras de um herói tentando sobreviver em uma Varsóvia ocupada pelos nazistas apelando para a bizarra profissão de “alimentador de piolhos” (!) e se metendo com grupos rebeldes.

A macabra atribuição de servir de pasto para insetos em prol da ciência, vale dizer, não é delírio do roteirista: o sacrifício real aconteceu sob a ocupação da Gestapo no instituto de Rudolf Weigl, onde o próprio pai do diretor, Mirosław Żuławski, trabalhou para salvar matemáticos, intelectuais e resistentes da deportação, usando o sangue humano para fabricar vacinas clandestinas contra o tifo.

Mas o filme está longe de ser uma aula de história. O que temos é um cruzado no estômago: cenários sujos, claustrofóbicos, banhados por um azul-escuro opressivo, onde a câmera portátil sufoca o campo de visão e amplifica uma paranoia que mistura memórias de guerra, metáforas apocalípticas e aparições fantasmagóricas. Eis uma estreia monumental e sufocante, daquelas que exigem do espectador mais do que uma digestão preguiçosa.

Em tempos sombrios como os nossos, é obra que convêm ver. Não é um filme pra todo mundo, mas azar de todo mundo.

Versátil
Foto: Divulgação Versátil Home Video

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Sobre o autor

Thiago Barcellos

Cineasta, crítico de cinema e mestre em artes. Pesquisa o cinema a partir das narrativas audiovisuais e de suas construções estéticas e afetivas, com foco na linguagem e na experiência do olhar.


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