Nos 90 anos do escritor Ivan Ângelo
Nascido em fevereiro de 1936, na cidade de Barbacena (seu pai era militar e vivia em constante deslocamento), foi na capital mineira, no entanto, que Ivan Ângelo realmente passou seus anos de formação. Estudante do Colégio Anchieta, cedo interessou-se por Literatura, tornando-se um leitor voraz. Participante ativo da vida cultural de Belo Horizonte, integrava o CEC (Centro de Estudos Cinematográficos), onde um entusiasmado grupo fazia crítica e pensava sobre a sétima arte.
Como membro da chamada “Geração Complemento” (de que também fizeram parte Silviano Santiago, Ezequiel Neves, Heitor Martins, Teotônio dos Santos Jr, entre outros), escreveu para a revista do mesmo nome, que fez história. Mais ou menos na mesma época, começou a trabalhar em jornais da capital mineira e a redigir contos. Já em 61, pela Editora Itatiaia (de Pedro Paulo e Edison Moreira), lançou, com Silviano, “Duas Faces”, coletânea de narrativas breves. Em 65, mudou-se para São Paulo, já contratado pelo “Jornal da Tarde”, periódico corajoso e inovador, até hoje reverenciado por quem valoriza a imprensa de qualidade. Conhecido pela excelência de seu texto literário, foi ainda cronista da Revista Veja por praticamente 20 anos, entre 1999 e 2018.
Agora – quando Ivan completa 90 anos – comemoramos, também, o meio século de um de seus livros mais importantes, “A Festa”, publicado em 76 (e contemporâneo de outras obras igualmente marcantes, como “Quarup”, de Antônio Callado, e “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca). Tido como um dos romances mais representativos do que se produziu, no gênero, em seu tempo, é narrado por vários personagens, sendo considerado ‘polifônico’: os leitores têm acesso a múltiplos pontos de vista sobre o enredo, que é tratado por distintos ângulos.
Um dos mais contundentes textos de crítica e denúncia contra o “estado de coisas” imposto pela ditadura iniciada em março de 64, “A Festa” também inovou na forma e no manejo da linguagem, reunindo, em seu conteúdo, diferentes registros discursivos, como a notícia de tevê, o fluxo de linguagem, os flash-backs, os diálogos teatrais, os interrogatórios policiais, as citações de livros e as imagens do cinema.
Considerado por Ignácio de Loyola Brandão o mais político e violento livro lançado nos anos setenta, “A Festa” merecerá, agora, edição especial de seus cinquenta anos – um acontecimento que deve ser saudado com alegria pelo mercado editorial e pelo público, já que a sua história permanece incrivelmente atual.
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