Viver em Voz Alta

O novo livro de Chico Bastos

Cronista passeia por assuntos que vão da infância às memórias que traz até os dias atuais

É íntima (e antiga) a relação entre os médicos e a escrita literária. Que o digam dois mineiros: Guimarães Rosa e Pedro Nava, ambos entre os melhores autores da língua portuguesa. A palavra exerce um fascínio a que é difícil resistir. Como sereia, ela atrai e seduz. Muitos mergulham no mar profundo em que vive o verbo, encantados pela possibilidade de desvendar seus mistérios, que não são poucos. Ainda que continue fiel à Medicina (sendo um dos expoentes de sua especialidade, a angiologia), Chico Bastos é mais um ótimo exemplo de ‘doutor’ que ouviu o chamado da literatura e deixou-se levar, aceitando o ‘escrever’ como a sua segunda natureza, o que o seu novo livro, “De borboletas e esperança” (Coopmed, 174 páginas), facilmente comprova, como notarão os leitores.

Em linguagem leve, fluida, agradável e de grande poder de comunicação, o cronista passeia por assuntos que vão desde a sua infância e as memórias que ela traz até os dias atuais, passando pelos tempos de sua formação universitária, a temporada em Paris e o começo da carreira. A diversidade temática ajuda o público a conhecer as várias facetas do narrador, suas visões de mundo, suas crenças e convicções, além de informar sobre como se relaciona em sociedade, com o mundo da cultura, e, sobretudo, com a natureza, cuja presença é marcante ao longo de todas as páginas. É principalmente na descoberta de suas belezas que ele se mostra dono de olhar sensível e apurado, capaz de captar detalhes que a muitos passariam despercebidos.

Outro foco de interesse de Chico está na relação com a cidade, seus encantos ocultos, seus pontos fortes, sua história. O mineiro de Oliveira se sente acolhido pela capital e a ela presta as devidas homenagens. Como tantos cronistas, ele também ‘flana’, sem rumo, pelas ruas e avenidas de Belo Horizonte, às vezes a pé, às vezes em bicicleta, cumprindo percursos pontuados por surpresas e descobertas, mas também por espanto e decepção: “Doeu-me quando, na avenida Pasteur, perto do Colégio Arnaldo, cortaram um pau-brasil adulto, já em floração, porque ‘atrapalhava’ o estacionamento de carros… Outro fato desagradável: foi triste ver o corte de um abacateiro adulto na Rua Bernardo Guimarães, quase esquina de avenida Bernardo Monteiro”.

Finalmente, vale registrar o talento do autor também no campo da composição musical. Em seu novo livro, ele premia o seu público com algumas letras de sua lavra, o que enriquece a experiência estética proposta por Chico a quem se embrenhar pelas ‘matas poéticas’ que ele generosamente oferece à fruição coletiva. Que um dia possamos todos ter a chance de ouvir suas canções. Ao vivo. E que sua afeição pela literatura continue acesa e forte. Seus leitores esperam novos livros, com a ‘boa prosa’ de sempre.

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