Barbas de molho

Ampliação do conceito de terrorismo, agora usado para enquadrar traficantes e facções criminosas, ainda gera questionamentos relevantes
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Barbas de molho
Foto: Reprodução Adobe Stock

Nos tempos modernos e recentemente de forma mais acelerada, o conceito de terrorismo ganhou uma elasticidade claramente patrocinada pela conveniência. Era terrorista a parcela da população vietnamita que reagira à divisão e invasão de seu país, hoje os vietcongs são objetivamente reconhecidos pela maioria como heróis modernos. Um exemplo dentre outros que poderiam ser lembrados, quase sempre associados às reações internas a episódios ditados pela força bruta. Também na mais recente invasão do Iraque, alegadamente promovida para devolver liberdade e prosperidade ao país, resultados jamais alcançados, sequer de fato percebidos, os insurgentes foram tratados como terroristas. Quase delinquentes da pior espécie, imagem, aliás, muito zelosamente cultivada pela máquina de propaganda que de costume dá suporte a tais empreitadas.

São motivos mais que suficientes para que sejam colocadas em dúvida, objetivamente questionadas, as tentativas, agora, de qualificar como terroristas traficantes de drogas e as facções criminosas a eles associadas. Tentativas que acabam de culminar com a criação de um tal “Escudo das Américas” – e nome que não sugere boas lembranças ate porque não está muito distante da terminologia própria da propaganda nazista na Alemanha de Hitler – e reunindo países alinhados aos Estados Unidos. Caberia até indagar, por elementar cautela, em que pé ficaram os ataques a barcos pesqueiros da Venezuela, apontados sem qualquer prova como a serviço do tráfico. Mais um daqueles casos para esquecer e fingir que nada aconteceu?

Quem sabe seria também interessante, além de muito oportuno, indagar o que exatamente os Estados Unidos estariam reservando à ponta do tráfico, os varejistas, traficantes que atendem diretamente ao consumo interno, muitos deles certamente cidadãos norte-americanos. Seriam também terroristas e, assim, classificados para todos os efeitos? O perigo mais evidente é que tudo pode não passar de um pretexto, com a simplicidade de que qualquer tipo de incômodo passaria a ser classificado como terrorismo, facilitando ações e, em qualquer escala imaginável, que sequer dependeriam de aprovação formal do Congresso dos Estados Unidos.

Não é pouca coisa, considerados todos os precedentes muito bem conhecidos, além das nunca disfarçadas, pelo contrário, frequentemente explicitadas, ambições do atual presidente dos Estados Unidos. País que, em tempos bem mais calmos e quando as regras da diplomacia eram melhor reconhecidas, invadiu o Iraque a pretexto de neutralizar seus arsenais de armas químicas. Em pouco tempo, a mentira não só foi percebida como admitida, o que absolutamente não significou qualquer mudança. Resta apenas enxergar e manter as “barbas de molho”.

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