Editorial

Enquanto é tempo

Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carmén Lúcia demonstra preocupação com as fake news antes das eleições deste ano
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Crédito: Pixabay

“Mentiras tecnologicamente divulgadas podem levar à contaminação do voto pela captura da vontade livre do eleitor”. Uma referência talvez delicada, como próprio da autora, feita pela ministra Cármen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que não falou ao vento e vai de encontro a preocupações crescentes, hoje comuns aos setores mais esclarecidos da população. Gente que tem perfeita noção das proporções dos estragos resultantes da situação de absoluto descontrole que tomou conta das plataformas eletrônicas de comunicação, em especial das chamadas redes sociais. Tudo numa escalada que acaba de alcançar esferas que se imaginava à parte, algo bem ilustrado nas tentativas de contratação de ditos influencers para que tentassem alterar, pela desinformação, o curso das apurações dos malfeitos envolvendo o Banco Master.

Conforme revelado e já em processo de apuração policial, gente de suposto peso na tal blogosfera teria sido chamada, e sob farta remuneração, para atacar e desacreditar o Banco Central e dessa forma tentar reverter a liquidação do Master. Nada indica, e muito ao contrário, que a mesma senda já não esteja sendo percorrida por gente disposta a pagar caro para influenciar eleitores e assim o resultado da votação a se realizar em outubro próximo, quando estarão sendo escolhidos deputados, senadores, governadores e o próximo presidente da República.

A rigor, nada que não seja conhecido, nada que merece o rótulo de novidade, mas é preciso chamar atenção para o fato de que os avanços agora vão além das mentiras, das fake news distribuídas de forma massiva. A opinião de gente que multiplica seguidores aos milhões e não necessariamente por processos que minimamente possam ser definidos como retos, claramente está disponível nesse balcão de negócios que segue à margem de mínimos controles. Independentemente do mal que façam, do mal que ainda possam fazer, acobertados pela alegação também mentirosa de que qualquer ataque poderia afrontar a liberdade de expressão, assim caracterizados como censura e autoritarismo.

Cármen Lúcia fala precisamente do oposto, ao advertir para os riscos a que todos estamos expostos, o que chamou apropriadamente de “sossego cívico”, direito a ser garantido para que o eleitor não precise “desconfiar a cada minuto” diante de falsas dúvidas que corroem as bases democráticas de um processo eleitoral que deve ser garantido “de maneira íntegra, tranquila”. E tudo, afinal, para que tecnologias que deveriam propiciar mais amplo acesso ao conhecimento e à informação acabem produzindo como resultado final exatamente o contrário.

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