Editorial

Espaços da razão

Conflito no Irã eleva a tensão global e reacende temor de uma corrida nuclear
Espaços da razão
Bombardeio no Irã | Foto: Stringer/ Reuters

A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, de outro, eleva a tensão internacional a um nível possivelmente sem precedentes desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. O bastante para levar o embaixador Celso Amorim, grande conhecedor do cenário internacional, a alertar que “devemos nos preparar para o pior” diante da possibilidade real de que o conflito se alastre no Oriente Médio. E crescem na mesma proporção os riscos de uma nova corrida armamentista, tendo como centro a busca de acesso a tecnologias que viabilizem produção de artefatos nucleares, sendo bastante lembrar que o assunto já é tratado abertamente em países como Coreia do Sul, Alemanha, Polônia e Japão, todos evocando a autodefesa como pretexto.

São perspectivas sombrias, sobretudo no entendimento de que as regras mais básicas de convívio internacional, do próprio Direito, vêm sendo quebradas e subvertidas para muito além do ocorrido nos momentos mais críticos da chamada Guerra Fria na segunda metade do século passado. E tudo tendo como pano de fundo interesses ditados pelas superpotências que prosseguem fazendo de conflitos localizados, como no momento, algo como espécie de campo de testes para seus limites ou, mais precisamente, para os limites da paciência de uns e de outros. Para além, o abismo, o imponderável que se afigura a cada dia mais próximo.

Quem afinal poderia imaginar – e até muito recentemente – que até Dubai, assim como os demais integrantes dos Emirados Árabes, seriam transformados em alvo para bombardeios e assim cenário da guerra que vai se alastrando? As labaredas no hotel apontado como o mais luxuoso do planeta talvez sejam a melhor expressão da nova realidade e alerta aos que se imaginavam fora do alcance da barbárie, protegidos pela ilusão, pela fantasia, dos benefícios da riqueza sem limites, sinais também de um modelo claramente disfuncional.

Fato é que as consequências dos erros acumulados, intencionais ou não, podem ser agora percebidas a olho nu, devendo ser tomadas também como evidências do extremo alcançado. Sugerindo assim reflexão e ponderação, se não recuos ditados pelo que ainda possa restar de bom senso. E com boa dose de otimismo para também devolver algum espaço à esperança de que a razão possa afinal ser percebida como objetivo mais alto, ao alcance da vontade. Estamos falando da harmonia esquecida, dos espaços da razão, mas igualmente poderíamos apontar, simplesmente, condições de sobrevivência.

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