A farra vai prosseguir
Quem olhar de fora, e sobretudo se a partir de países em que prevalecem padrões bem mais rígidos, muito provavelmente não poderá compreender como e porque no Brasil parâmetros éticos possam ser tão, digamos, elásticos. Especialmente na esfera pública, onde a corrupção escancarada, sem pudores, é apenas uma das faces de distorções ainda maiores e mais vergonhosas. Caso das discussões que agora ocupam o primeiro plano e em torno dos ditos penduricalhos que adornam folhas de pagamento de milhares de servidores públicos, transformando em ficção, se não brincadeira de muito mau gosto, o dito teto para proventos da categoria. Ou mais uma daquelas leis que não pegaram, mas por suposto determinando que nenhum salário pode ultrapassar o valor pago a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Uma farra bastante antiga e que, à falta de controles e, com o correr do tempo, também de elementar pudor, foi crescendo, estimando-se que no presente possa representar sangria nos cofres públicos da ordem de R$ 30 bilhões ao ano. Abusos continuados que – pasmem os leitores – já levaram ao STF, segundo depoimento recente do ministro Flavio Dino, perto de 14 mil ações questionando ou reclamando os favores reservados a quem possa ter bons padrinhos, aqueles para os quais o céu e não o teto continua sendo o limite.
Uma farra que evidentemente precisa acabar e disso o ministro Flavio Dino também está cuidando. Em tese, para acabar com o que não é legal, mas também para acabar também com o que encontra abrigo na legislação um tanto indulgente e de conveniência, mas que certamente não tem proteção da ética e dos tais bons costumes de que outrora se ouvia falar. Uma pouca vergonha que, depois da decisão do STF de dar-lhe fim, agora esbarra num grupo de trabalho chamado a formular, e com prazo de dois meses para cumprir a tarefa, regras de transição para dar fim aos penduricalhos. Houvesse mínima seriedade, ou elementar vergonha na cara, algo que já deveria ter sido feito. E com auxílio de tacapes se necessário e conveniente.
Quem estiver olhando de fora, como aquele personagem imaginário presente nas primeiras linhas desse comentário, certamente já entendeu que tudo pode não passar da velha estratégia de dar tempo ao tempo e assim contar com o esquecimento e a falta de memória tão comum nessas plagas. Para que os penduricalhos possam continuar bem vivos e sejam minimizados constrangimentos para quem imaginou ser possível apagá-los.
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