Editorial

Informações contaminadas

Suposto uso de influenciadores digitais contratados no debate sobre a liquidação do Banco Master reacende a questão da liberdade de expressão no Brasil
Informações contaminadas
Vista da entrada do Banco Master. Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

A liquidação do Banco Master e revelações subsequentes ganharam espaço no noticiário nacional, agora com um capítulo novo. A revelação de que influenciadores digitais – teriam sido 10 ao todo – foram convidados, e sob promessa de gordo pagamento, a divulgar nas redes sociais que a liquidação teria sido fruto da precipitação do Banco Central e não de irregularidades que igualmente receberam grande publicidade nas últimas semanas. Tal movimentação já foi negada por representantes do banco, mas o jornal “O Globo” informou que pelo menos 42 perfis nas redes sociais passaram a se ocupar do tema, sempre para repetir a mesma trama que assim deixou o terreno das análises de finanças e negócios para ser abrigada em perfis onde divide espaços com meras fofocas.

Evidentemente que nada disso encontra abrigo no rol da liberdade de expressão ou no direito ao acesso livre à informação, conforme ainda insistem aqueles que defendem que as redes sociais devem operar livres de qualquer tipo de regulamentação, muito menos controles. São conceitos propositadamente desvirtuados, colocados fora de contexto, entre outras razões para abrir espaços para negócios de ocasião. Como aconteceu em passado não muito distante, quando a Grã-Bretanha deixou a Comunidade Europeia por conta de um referendo em que informações foram propositadamente desvirtuadas, propositadamente manipuladas para atender interesses um tanto obscuros. Fatos comprovados e bem documentados sobre os quais não pairam dúvidas, mas que não bastaram para deter abusos que se reproduzem como ervas daninhas.

Não se pode admitir, pelo menos não em sã consciência, que assunto tão delicado e com implicações de tal monta que bem poderiam desestabilizar todo o sistema financeiro, escapem dos filtros e controles a que está sujeita a imprensa tradicional, pré-requisitos de sua própria credibilidade ou existência. O contrário é o mesmo que dar como naturais abusos e desvios que continuam a se repetir e numa escala que levou estudiosos de renome a alertarem para riscos que envolvem – e planetariamente – a própria organização político-social que molda nações e a sociedade.

Não enxergar, ou melhor, fingir não enxergar ou apostar na conveniente ladainha de que regulamentação e controle seriam sinônimos de censura e agressão às liberdades individuais, é o mesmo que dar força a desvios que representam ameaças de proporções inéditas para tudo e todos. E os acontecimentos agora revelados deveriam bastar para confirmar que não estamos mais diante de suposições ou de riscos futuros. Todos estamos ameaçados, todos estamos diante de riscos que precisam ser contidos.

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