Editorial

Lembrar o bom senso

Debate sobre a flexibilização das regras urbanísticas em Belo Horizonte requer prudência
Lembrar o bom senso
Prédios em BH. Foto: Reprodução/Adobe Stock

Houve um tempo em que construir arranha-céus era símbolo tanto de modernidade quanto de prosperidade e poder. Modismo que ganhou força e palco a partir dos Estados Unidos e foi encontrar em Nova Iorque seus melhores símbolos. Reservado ao Empire State Building as reverências devidas, e durante décadas, ao “prédio mais alto do mundo”. Mas o eixo dessas escolhas equivocadas foi sendo deslocado, encontrando abrigo primeiro, na Ásia, e adiante, nos Emirados Árabes, sempre para exibir opulência ou, talvez, vender ilusões. Desse modelo e dos desvios consequentes, temos no Brasil maior referência, guardadas as proporções evidentemente, em Camboriú, Santa Catariana, hoje palco de uma corrida que parece tão fora de controle a ponto de comprometer a insolação na principal praia do balneário.

É neste mesmo contexto, precisamente, que o assunto chega a Belo Horizonte para repetir a ideia equivocada de que construir edifícios gigantes seria algo como monumentos à modernidade. E sem que seja colocado na devida conta que o adensamento consequente impõe grandes inconveniências, a começar do comprometimento da mobilidade porque quase nunca entram nas contas os gastos necessários com ampliação de equipamentos urbanos, evidentemente na mesma proporção das edificações que apenas reforçam ilusões.

Evidentemente que as posturas municipais relativas à ocupação de espaços e edificações não são imutáveis, sendo elementar que acompanhem as mudanças trazidas pelo tempo. Sem desconsiderar os interesses de proprietários ou de empreendedores, sem engessar o que possa ser entendido como progresso, mas igualmente sem possibilitar que as condições de vida, no plano da realidade e não das aparências, simplesmente, fiquem em segundo plano. Ou sejam simplesmente ignoradas. Equilíbrio e bom senso fazem muito bem e é o que os senhores vereadores de Belo Horizonte devem ter em mente ao avaliar propostas de “modernização” das posturas municipais, conforme está colocado.

Sobretudo, sem que seja perdido o entendimento de que a ampliação de áreas edificáveis, de adensamento, portanto, definitivamente não deve significar a repetição de erros que foram tão comuns no passado. Deles são testemunhas as cicatrizes presentes em cada uma das grandes cidades brasileiras em que conceitos mais adequados de urbanismo sempre ficaram em segundo plano. Trata-se de avançar, de fazer melhor, mas no entendimento de que tudo que for feito só tem sentido se significar melhores condições de vida para todos. E livre das ilusões e extravagâncias que, na realidade, apenas provocam algum deslumbramento aos desavisados.

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