Perdas em escalada
Os garimpos em terras indígenas ou reservas naturais no Extremo Norte do País, que nos últimos anos têm chamado atenção principalmente por conta dos danos ambientais que provocam, representam apenas a ponta inicial de uma bem montada engrenagem que avança além-fronteiras. E, tudo leva a crer, bem distante da visão simplista de que os toscos garimpos seriam apenas mais um braço do dito crime organizado e suas conhecidas facções. Eis o que se pode concluir depois de longos anos de investigações da Polícia Federal e que demonstraram a existência de bem montada organização, com ramificações na América do Norte e Europa, capaz de fazer com que o ouro arrancado nos confins amazônicos chegue aos centros de comércio do metal na Suíça ou à mais fina ourivesaria italiana. Apenas uma dessas organizações teria movimentado mais de R$ 10 bilhões e escoado cerca de 20 toneladas de metal extraído clandestinamente.
Mesmo que as atenções estejam presentemente concentradas na política e no processo eleitoral, é fundamental tomar conhecimento dos resultados das apurações da Polícia Federal assim como das proporções e abrangência da atividade ilegal. Uma trilha que evidentemente começa nos garimpos, passa por Manaus e chega a São Paulo para então tomar o rumo do exterior. A extração é a primeira etapa e que avança para um bem montado esquema de legalização, tudo evidentemente por meios fraudulentos, mas adequados para garantir que o ouro chegue aos centros de consumo planetários. Nesse processo, imagina-se, a organização desmontada e agora denunciada seria apenas uma dentre outras que atuariam com os mesmos propósitos e métodos.
Para que tudo possa acontecer, para que o processo seja compreendido e, ao fim e ao cabo, muito bem-sucedido, é preciso que exista também toda uma teia de cumplicidade e de omissão, sem o que a complexa logística não teria como parar de pé. Nesse sentido, apenas desmontar uma quadrilha, como parece estar acontecendo por conta do trabalho da Polícia Federal, teria pouca relevância. Outros surgiriam de imediato para ocupar os espaços vazios e alcançar benefícios tão fartos diante dos quais a miséria estampada nas imagens que chegam dos garimpos definitivamente não bastam para afetar os grandes beneficiários de ganhos que, conforme visto agora, podem chegar à escala das dezenas de bilhões de reais.
Eis a conclusão que mais importa, com boa dose de otimismo até mesmo como ponto de partida para políticas públicas que protejam verdadeiramente as populações originais dessas áreas. E protejam também uma riqueza que é afinal de todos os brasileiros e está sendo perdida mais uma vez.
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