Editorial

A utopia e a realidade

Neste ano eleitoral, estamos mais uma vez diante de um espetáculo paupérrimo na política brasileira
A utopia e a realidade
Foto: Reprodução Adobe Stock

Já em clima de Carnaval e por inteiro voltados para a folia, os brasileiros, se não todos certamente a maioria, respiram fundo na última pausa antes que as festas alcancem sua plenitude. Para um ano que promete ser movimentado e repleto de emoções fortes é preciso algum alívio, lembrando também que na Quarta-Feira de Cinzas os dias do ano novo efetivamente começarão a ser contados. E com as atenções em parte orientadas para a campanha política que culminará no mês de outubro, quando estará sendo escolhido o próximo presidente da República, além de governadores, senadores e deputados.

Num país em que eleitos tomam posse já pensando na próxima eleição e onde a rigor as campanhas começam no dia seguinte e nunca param, diferenças são percebidas, talvez, apenas pela aceleração dos movimentos e pela etapa final das escolhas. Aquele momento em que muitos que prometeram não tentar um segundo mandato ou renunciar aos cargos que ocupam para – quase sempre – buscar subir alguns degraus na escada da política, informam que mudaram de ideia porque não foram capazes de resistir às pressões de correligionários. Aquele momento que coincide também com a dança de cadeiras nos partidos, com mudanças ditadas mais que pela conveniência e oportunismo que propriamente à conta de valores mais relevantes. Tudo como se não houvessem contas a prestar, posições a defender com intransigência e, sobretudo, bandeiras bem mais altas que rasteiras conveniências.

Em suma, estamos, os brasileiros, e mais uma vez, diante de um espetáculo um tanto pobre, na verdade paupérrimo. E tudo com uma naturalidade que deveria assustar ainda mais, sobretudo diante da elementar constatação de que cada movimento corresponde exclusivamente a etapas de um ritual em que o verdadeiro sentido da política se perde, esquecido e aviltado.

Diante dos múltiplos desafios que permanecem de lado, esquecidos, eis um quadro bastante preocupante. Porque para além das promessas vagas e desimportantes, ditadas apenas pelo marketing, ninguém se levanta para apresentar pelo menos o esboço – poderia ser mero rascunho – de algo que verdadeiramente se aproxime de um projeto para o Brasil. Capaz de lembrar o que somos, mas sobretudo de apontar o que desejamos ser, mostrando como alcançar o objetivo que para o candidato passaria a ser sua identidade e seu propósito. Ou o compromisso que idealmente seria também exclusivamente o caminho para a vitória dos melhores.

Mais realista será reconhecer que estamos diante de uma utopia, de algo fora do alcance. Algo que nos impedirá de dizer, como ainda agora aconteceu em Portugal, que os verdadeiros vencedores foram a democracia e os portugueses. Triste.

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