Parceiros do Futuro

Falta de planejamento em infraestrutura coloca futuro do Brasil em risco

Especialistas defendem visão de longo prazo, parcerias público-privadas e educação para superar gargalos e alavancar o desenvolvimento nacional
Falta de planejamento em infraestrutura coloca futuro do Brasil em risco
Descontinuidade dos projetos de infraestrutura é um dos desafios para Minas Gerais | Foto: Divulgação DER-MG

Definida em termos gerais como um conjunto de serviços, sistemas e instalações básicas — como transportes, energia, saneamento e telecomunicações — essenciais para o funcionamento e desenvolvimento socioeconômico de uma cidade, região ou país, a infraestrutura engloba estruturas físicas e organizacionais que suportam atividades produtivas e garantem qualidade de vida à população.

Fundamental para a construção de um futuro próspero e sustentável, a infraestrutura é considerada o motor do desenvolvimento, permitindo que empresas produzam e escoem mercadorias, além de conectar pessoas e serviços. Assim, uma infraestrutura eficiente gera impacto social, melhora a qualidade de vida e aumenta a produtividade econômica.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, marcado por um modelo exploratório predatório desde o início da colonização, que levou a um desenvolvimento desigual e elitista, a planificação e racionalização dos investimentos em infraestrutura são vistos como condição básica para que o País dê um salto e queime etapas de desenvolvimento em busca de um futuro de prosperidade real, como o ambicionado pelo projeto Parceiros do Futuro.

Capitaneado pelo Diário do Comércio, em parceria com a consultoria Spine, o Parceiros do Futuro quer estabelecer uma agenda de desenvolvimento sustentável e duradouro rumo a um cenário de prosperidade real, em que a diversificação econômica, a valorização da inovação e a geração de riqueza de forma equilibrada funcionam como pilares para a estruturação de um planejamento de longo prazo.

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Foto: Reprodução Adobe Stock

Um dos principais desafios para a construção de uma infraestrutura capaz de suportar o desenvolvimento que Minas Gerais e o Brasil almejam é a descontinuidade dos projetos. Especialistas são unânimes em afirmar que um olhar de longo prazo que ignore ciclos eleitorais e aposte na convergência entre tecnologia, capital privado e segurança jurídica é fundamental para que o objetivo seja alcançado.

Durante o evento Eloos Itatiaia, que conta com o apoio do Diário do Comércio, no fim de março, o diretor do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral (FDC), Paulo Resende, destacou que a infraestrutura não deve ser tratada como um projeto de governo, mas como um compromisso de Estado.

“O Brasil precisa entender que governos passam, mas nós ficamos. Isso nós chamamos de planejamento de longo prazo. Um país precisa planejar o longo prazo para que nós deixemos para as próximas gerações um trabalho dentro de um ambiente onde elas possam mostrar e deixar para os seus filhos uma grande engenharia”, explicou Rezende.

Para o especialista, a infraestrutura deve ser entendida como o “chão” sobre o qual a economia caminha; sem continuidade e planejamento que atravessem décadas, o País continuará enfrentando gargalos que encarecem a produção e diminuem a qualidade de vida do cidadão.

Os tipos de Infraestrutura são:

  • Econômica: Focada no suporte à produção (transportes, energia, comunicações).
  • Social: Focada na qualidade de vida (hospitais, saneamento, habitação).
  • TI (Tecnologia da Informação): Componentes necessários para operar ambientes de TI (hardware, software, redes).

No mesmo evento, o diretor da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), Marco Aurélio de Barcelos, reforçou que o modelo de investimento exclusivamente público está esgotado. Ele defendeu que as Parcerias Público-Privadas (PPPs) são o único caminho viável para modernizar as estradas e os serviços públicos.

Segundo ele, embora o Brasil tenha avançado nos últimos dez anos com a disseminação das PPPs e concessões em esferas federais, estaduais e municipais, o cenário eleitoral de outubro representa um teste para essa visão estratégica.

“Está na hora de nos perguntarmos qual será a pauta estratégica da infraestrutura com a mesma veemência que ouvimos sobre saúde, segurança e educação. A crença na infinitude do orçamento público não é mais possível. Se seguirmos achando que dá para imprimir dinheiro para fazer infraestrutura, vamos andar de lado”, afirmou Barcelos.

De acordo com o professor-doutor da área de Finanças do Ibmec, Melquezedech Moura, para avançar em infraestrutura, o Brasil precisa voltar um passo e dedicar investimentos e esforços à educação e qualificação profissional.

“Em repetidos rankings estamos nos últimos lugares em educação básica, qualificação de mão de obra e domínio de idiomas estrangeiros. Isso nos coloca em vulnerabilidade porque mesmo que tenhamos tecnologia instalada, não conseguimos aproveitá-la plenamente”, alerta Moura.

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Foto: Reprodução Adobe Stock

O Brasil apresenta um desempenho baixo em rankings internacionais de infraestrutura, ocupando posições desfavoráveis. Em 2024, o País ficou na 62ª posição de 67 economias no Ranking de Competitividade do IMD. Estudos anteriores indicaram colocações próximas a 70º ou 80º lugar em competitividade global, destacando desafios históricos, especialmente em logística, saneamento e energia.

Diferentes relatórios apontam que na última década o Brasil investiu, em média, menos de 2% do seu PIB por ano em infraestrutura, valor considerado insuficiente para superar os gargalos existentes. A taxa de investimento brasileira é muito inferior à de economias emergentes como China (43% ao ano) e Índia (33% ao ano). As áreas com as maiores deficiências de infraestrutura incluem logística, transportes, saneamento, conectividade e energia, impactando a competitividade do País.

“O Brasil é a única entre as 20 maiores economias do mundo que investe menos de 2,5% do PIB no setor. Isso não é coincidência. O orçamento público não é suficiente para atender à demanda. O poder público precisa se concentrar na boa modelagem de projetos e garantir segurança jurídica para atrair investimentos de longo prazo”, alertou Rezende.

A atração de investimentos deve ser vista não só como a entrada de capital como uma oportunidade de transferência de tecnologia que melhora o desempenho do País e a qualidade de vida da população.

“Precisamos nos aliar com países que nos permitam, por exemplo, fazer a exploração de minerais críticos, mas de jeito que o primeiro beneficiado seja o Brasil. Hoje exploramos petróleo, mas o nosso mercado não é sustentável, somos suscetíveis ao que acontece no mercado externo. A sustentabilidade tem que partir da nossa posição. O Brasil tem se posicionado em termos de inovação mais como um seguidor do que vanguardista. Não podemos nos colocar em contraposição aos grandes parceiros como China e EUA. E ao mesmo tempo, é preciso ter uma diversificação multilateral estratégica”, avalia o professor-doutor da área de Finanças do Ibmec.

Investimentos em inteligência artificial miram futuro seguro

Na última edição do Ranking de Competitividade Digital do IMD World Competitiveness Center (WCC), divulgado em novembro do ano passado, que analisou 69 nações, o Brasil ocupa o 53º lugar, superando o período de estagnação observado em 2023 e 2024. O País registrou melhora nos três principais fatores avaliados: em tecnologia, subiu para a 58ª posição, dois pontos acima do ano anterior; em conhecimento, alcançou o 56º lugar; e em prontidão para o futuro, apresentou o maior progresso, com um avanço de três posições, chegando à 50ª colocação.

De acordo com o diretor do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral (FDC), Hugo Tadeu, o Brasil tem avanços expressivos em inovação e digitalização, alcançando posições de destaque em indicadores que reforçam o fortalecimento da economia do conhecimento e a capacidade do País de gerar e difundir tecnologia. Isso, porém, não tem reverberado em desenvolvimento econômico e social para a maior parte da população.

O País obteve sua melhor colocação em produtividade de publicações por pesquisas (9º lugar), resultado do crescimento de programas de fomento à ciência e da aproximação entre universidades, centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e empresas.

“Se analisarmos os relatórios dos últimos 20 anos, vamos perceber que as séries históricas têm o mesmo comportamento, seja na construção de estradas, seja nos projetos de tecnologia. Existe um problema de custo de capital e não conseguimos ir além dos projetos pontuais, sem uma visão estratégica de longo prazo”, explica Tadeu.

Outro ponto relevante é o aumento dos investimentos privados em inteligência artificial (16º lugar), reflexo do amadurecimento do ecossistema de startups e da expansão do uso de IA em setores estratégicos, como saúde, finanças e educação. Esse avanço evidencia o fortalecimento do ambiente de inovação nacional, marcado pela maior participação do setor privado em tecnologias de impacto econômico e social. Ainda assim, o País abriga poucas empresas capazes de produzir tecnologia própria.

“A maior parte dessas empresas – sendo muitas transnacionais – apenas customizam soluções, ou seja, não estão na fronteira do conhecimento. Assim, replicamos um modelo antiquado de importação de tecnologia que não se traduz em desenvolvimento. Não existe mágica, precisamos oferecer condições básicas para atrair investimento e manter os talentos no Brasil. É fundamental alinharmos os projetos em um planejamento estratégico capaz de utilizar os diferenciais competitivos que temos – como recursos naturais, posição geográfica e população jovem, por exemplo – em sua plenitude”, completa o diretor do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da FDC.

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