Emendas parlamentares controlam 25% dos investimentos federais
Brasília – Dados da execução do Orçamento de 2025 mostram que deputados e senadores controlaram, por meio de emendas, cerca de 25% dos investimentos federais, categoria de despesa que inclui desde a construção de hospitais e estradas até a compra de maquinários e outros equipamentos.
A proporção cresce quando são avaliados os órgãos vinculados aos ministérios, caso das universidades públicas. Por esse recorte, 44 instituições têm mais da metade do orçamento vinculado às emendas, sendo que as indicações superam 90% dessa verba em nove delas.
O caso de maior expressão é do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), em que 99,5% dos cerca de R$ 118 milhões empenhados em 2025 para investimentos foram obtidos por meio das emendas. O órgão recebeu equipamentos como microscópios, além de painéis solares, entre outros investimentos.
A lista das instituições mais dependentes dessas indicações é formada principalmente por universidades e institutos federais.
Há ainda cerca de R$ 5,9 bilhões em investimentos destinados para emendas Pix, modalidade de indicação individual enviada diretamente aos cofres de prefeitos e governadores.
A participação das emendas no total de investimentos do Executivo tem variado nos últimos anos. Foi de 8% em 2015 e chegou a 43% em 2020.
Para Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos(Inesc), as emendas subvertem o planejamento das políticas públicas, que deveria observar prioridades regionais e a dinâmica de cada instituição.
“O parlamentar manda o recurso naquele tipo de aplicação que é mais fácil de viabilizar, que não demanda grandes projetos, grande capacidade técnica do Executivo local. E envia esse recurso de forma que ele possa ter uma visibilidade pessoal associada”, afirma.
Como exemplo, Cardoso aponta que a maior parte da verba indicada ao Ministério do Meio Ambiente é aplicada em mutirões de castração de animais, por ser algo mais fácil de executar.
O Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação (Conif) afirma que as emendas têm desempenhado papel relevante no financiamento, principalmente diante da restrição de recursos regulares.
A entidade afirma que o uso dos repasses se dá por “necessidade, e não como modelo desejável de financiamento”. Defende que sejam garantidos recursos estáveis e previsíveis no Orçamento, “reduzindo a dependência de mecanismos eventuais e assegurando condições estruturantes”.
O Conif também pondera que os investimentos federais têm sido impulsionados pelo Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que injetou R$ 745 milhões na rede no último ano, ante R$ 665 milhões das emendas.
Órgão com maior percentual de investimento por emenda, o Ifes disse que a dependência das indicações parlamentares é um fato posto a todas as autarquias, “visto que o orçamento de investimento das instituições federais diminuiu sucessivamente ao longo dos últimos anos.”
“Dessa forma, o relacionamento com as bancadas passa a ser uma ação importante e necessária para a constante melhoria das entregas da instituição”, disse ainda o instituto.
O segundo órgão com maior parcela de investimento vindo de emendas em 2025 foi o Instituto Federal de Brasília, com 97,9%.
O avanço do Congresso sobre o Orçamento se escancarou a partir de 2020, quando houve um salto de R$ 18,3 bilhões para R$ 48,5 bilhões em emendas empenhadas, considerando valores atualizados pela inflação. A alta foi puxada pela chamada emenda do relator, que o STF declararia inconstitucional em 2022.
Em 2025, o governo empenhou R$ 47,3 bilhões em emendas, considerando valores atualizados pela inflação. O recurso nas mãos dos parlamentares em 2026 pode subir, pois o Orçamento aprovado em dezembro pelo Congresso prevê mais de R$ 61 bilhões nos repasses. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda terá de decidir se aprova ou veta o valor.
Reportagem distribuída pela Folhapress
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