Ipatinga busca redução na dependência da siderurgia
Cidade polo do Vale do Aço mineiro, a cidade de Ipatinga tem papel fundamental como empregador e gerador de riqueza para as cidades a seu redor, gerando mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) metropolitano. Abriga importantes empresas de comércio e serviços, setores impulsionados pelo vigor da indústria – que tem a Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) como principal locomotiva, apresentando relevante volume de bens exportados, destaque para o aço e produtos metalmecânicos.
Eleito em 2020 com cerca de 40% dos votos válidos da cidade, Gustavo Nunes, do PSL, quer mudar esse cenário. O jovem político de apenas 26 anos visa, entre outras metas, diversificar a economia do município e não deixá-lo tão dependente da cadeia do aço. Para isso, pretende reaver as vocações locais, apostar em parcerias público-privadas (PPPs) e dar continuidade à expansão do Distrito Industrial (DI) da cidade.
Nunes dá continuidade à série de entrevistas em que o DIÁRIO DO COMÉRCIO busca conhecer os principais desafios e metas dos prefeitos eleitos em algumas das principais cidades polo de Minas Gerais. Em conversa exclusiva ele detalhou o plano, que para ele, ajudará a retomar o crescimento econômico que Ipatinga ostentou nas décadas de 80 e 90. “Nos anos 2000 a cidade estagnou. Agora precisamos reaquecer a economia, criando estímulos e instrumentos práticos para que a cidade volte a ter protagonismo”, argumentou.
Quais os principais desafios você vê pela frente?
Existe uma percepção clara de que Ipatinga está acumulando, há várias gestões, problemas administrativos de toda ordem. Quase sempre se fazia uma previsão de receita muito além do que a cidade realmente arrecadava, o que levava a um déficit anual na casa de 10% a 12% do orçamento. Por isso, nossa administração tem agora um desafio enorme, de enxugar a máquina pública. Em paralelo, há muitas outras coisas que precisam ser resolvidas na cidade, do ponto de vista do planejamento urbano, de melhorias na saúde, na educação, no transporte, etc… No entanto, a cidade se vê diante de uma grande crise financeira, em que o que se arrecada é insuficiente para que se possa realizar grandes projetos. Então, temos o desafio de preparar esses grandes projetos e implantar parcerias público-privadas, buscar junto aos órgãos federal e estadual recursos para que obras de desenvolvimento se transformem em realidade.
O que norteará seu programa de governo entre 2021 e 2024?
Temos três planejamentos estratégicos distintos construídos dentro da gestão. O primeiro, já em andamento, para os primeiros 100 dias, que visa organizar a equipe de governo e resolver os problemas emergenciais da cidade, como falta de medicamentos, insumos, enfrentamento à pandemia, recuperação da malha viária, socorro a áreas de risco, entre outros. A gente realizou uma programação para conseguir resolver essas demandas básicas neste período inicial. O segundo plano consiste do planejamento elaborado para o restante do ano e é mais voltado para a organização financeira e econômica da cidade e o cumprimento de ações de curto, médio e longo prazos, que convergem para o Plano Plurianual. Este é o nosso terceiro planejamento, que adapta o plano de governo à nossa condição econômica e financeira para que possamos executar tudo nos quatro anos de mandato. Dentro do Plano Plurianual, temos uma série de ações a serem implementadas, de modernização administrativa, planejamento urbano, na área da saúde, educação, transporte e segurança pública. Nesta execução, pretendemos absorver 100% do plano de governo e ainda acrescentar cases de sucesso, que observamos após a eleição – todos exequíveis e desejáveis para o município de Ipatinga.
Como a política de desenvolvimento de seu programa leva em conta a questão fiscal?
Ipatinga vive desde 2011 e 2012 um desequilíbrio fiscal, com previsões de orçamento maiores do que se arrecada, gastando mais do que pode. Estamos fechando com um déficit anual recorrente e crescente e isso precisa ser equilibrado. Hoje, o município está num contingenciamento, onde todas as secretarias estão trabalhando com redução de despesas. Estamos revisando os contratos, cancelando os supérfluos em busca do equilíbrio fiscal. Também estamos organizando questões como o recadastramento imobiliário e a regularização fundiária, ou seja, estamos modernizando nosso sistema de arrecadação para que o município possa ter menos perdas na questão tributária e consiga, de fato, arrecadar o que realmente é produzido. Esse equilíbrio fiscal é importantíssimo para que a gente possa, nos próximos anos, organizar nossa cidade administrativamente e dar respostas às demandas que temos no dia a dia e que estavam sendo postergadas nos últimos anos.
Como está o enfrentamento à Covid-19 na cidade? Quais as principais ações?
A gestão anterior teve cerca de nove meses para preparar o sistema de saúde, instrumentalizá-lo convenientemente, mas lamentavelmente não o fez. Hoje, nossa gestão procura implementar políticas públicas eficientes e com fundamentos científicos. Isso está sendo visto e reconhecido, por exemplo, nas ações implantadas, uma vez que percebemos uma curva decrescente no índice de novos contágios. Mas é preciso levar em consideração que Ipatinga, por ser uma cidade-polo, vive o problema da microrregião, pois tudo o que acontece no entorno deságua no nosso sistema de saúde, o que provoca superlotação de leitos. Hoje temos 49% de leitos de Unidades de Terapia Intensivas (UTI) ocupados por não munícipes e 51% por munícipes. Isso implica em desequilíbrio na capacidade de atendimento, gerando desgaste para o sistema de saúde local. Diante destas circunstâncias, o governo municipal está cobrando da empreiteira que toca a obra do Centro de Covid, no centro da cidade, agilidade na conclusão, de maneira que entregue a edificação no menor prazo possível. Ao mesmo tempo, estamos trazendo pessoas com capacitação técnica para adotar protocolos de enfrentamento à pandemia. Estamos organizando o sistema de saúde, mesmo que não tenhamos à disposição o grande volume de recursos. Em 2020, o Executivo recebeu um volumoso repasse do governo federal para combater a doença, ao passo que, neste ano, ainda não recebemos quase nada. Mas estamos lançando mão de recursos próprios e tentando cadastrar mais leitos para que tenhamos melhores condições de enfrentamento. Também estamos acelerando o processo de vacinação, colocamos mais carros nas ruas para imunizar os idosos, e montamos todo um aparato para que, à medida que as vacinas cheguem, não fiquem estocadas. Estamos também produzindo e executando campanhas de conscientização e o setor de fiscalização tem apurado os locais que não cumprem as regras sanitárias. Por fim, existe todo um trabalho sendo construído no enfrentamento à pandemia, embasado em metodologia científica, não no achismo ou na hipocrisia de querer sacrificar alguns setores em função de um problema que ainda não sabemos por quanto tempo vamos enfrentar.
Quais são os efeitos econômicos?
Ipatinga já sofreu demais com a política equivocada da gestão anterior, que resultou em imensos sacrifícios para o comércio e serviços, de uma maneira geral. Tivemos a perda de muitos postos de trabalho, um índice enorme de desemprego, e agora está na hora de reaquecer a economia. A prefeitura está trabalhando para operacionalizar parcerias com o Sebrae, Sest/Senat, Sindcomércio e outros órgãos que possam auxiliar na capacitação de mão de obra. Além disso, tenho viajado para buscar parcerias e atrair novas empresas para a cidade, de forma que possamos voltar a aquecer a economia local e Ipatinga voltar a ser uma cidade pujante economicamente.
Entre os investimentos privados recebidos por Ipatinga nos últimos anos, quais são os principais destaques?
Nossa cidade tem experimentado uma curva decrescente de investimentos nos últimos anos. Como consequência, Ipatinga tem perdido postos de trabalho e empresas. Agora, juntamente com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo (Semdetur), estamos construindo um trabalho técnico para criar atrativos para novas empresas no município, estamos buscando tornar realidade a expansão do Distrito Industrial e estabelecendo parcerias público-privadas de forma a mostrar que Ipatinga é um ambiente fértil e propício para receber novos investimentos.
Em quais setores vê maior potencial?
A Prefeitura está trabalhando com projetos para aquecer o setor metalmecânico, para incentivar construções mistas, de modo que o município possa ter vendas internas também no setor do aço. Temos buscado estudos de sucesso em cidades que atraíram novos empreendimentos e redefiniram sua vocação econômica. Estamos buscando uma reorganização da vocação, procurando viabilizar investimentos não apenas em setores de grande porte, mas também no varejo, por exemplo, em que perdemos muito nos últimos anos.
Quais os diferenciais da cidade para isso?
Os diferenciais de Ipatinga são vários. Além de ser uma cidade-polo do aço, nos posicionamos em uma localização privilegiada, já que estamos em uma rota para o Nordeste, Sudeste e, agora, com a duplicação da BR-381, nossa malha viária será mais estruturada. Somos uma cidade jovem, de apenas 57 anos, com mão de obra especializada disponível e muitos atrativos, inclusive, de ordem turística e ambiental, com uma privilegiada zona rural. Precisamos explorar melhor o potencial de que dispomos para que a cidade retome o crescimento econômico que ostentou nas décadas de 80 e 90. Nos anos 2000 a cidade estagnou. Agora precisamos reaquecer a economia, criando estímulos e instrumentos práticos para que a cidade volte a ter protagonismo.
Sobre arrecadação. Como está hoje a situação do município e como é dividido o peso dos setores?
Percebemos em uma série histórica que a cidade ficou por muitos anos acomodada com o percentual que arrecadava de empresas do setor metal mecânico e não buscou investir em novos nichos de mercado. Por isso, hoje, grande parte da nossa arrecadação está ligada ao setor, e quando há uma oscilação dentro do mercado, a cidade tem perdas na arrecadação por estar diretamente ligada a um único setor. A proposta da nossa gestão é, justamente, buscar investimentos e a partir do novo Distrito Industrial, atrair novas empresas e criar um equilíbrio entre os setores industriais. Para isso, estamos desenvolvendo trabalhos de profundidade técnica e interativa. Acreditamos que nos próximos anos teremos uma melhora gradual na arrecadação do município, criando o equilíbrio econômico necessário para que a gestão flua com maior desenvoltura, correspondendo mais efetivamente aos anseios da população.
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