Política

Isenção ampliada do IR para classe média reforça vantagem do candidato do PT

Medida é um esforço de Lula para ampliar o apelo à esquerda, para além das pessoas de baixa renda
Isenção ampliada do IR para classe média reforça vantagem do candidato do PT
Foto: Ricardo Stuckert

Brasília – A ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) para a classe média, que praticamente reduziu pela metade o número de brasileiros contribuintes, está reforçando os ventos econômicos favoráveis e colaborando para assegurar a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas primeiras pesquisas, às vésperas da disputa pela reeleição.

A medida, uma de suas principais promessas de campanha em 2022, reflete um esforço para ampliar o apelo do líder de esquerda para além de sua tradicional base de eleitores de baixa renda.
Ela deve dar mais fôlego a uma economia que, embora não esteja em forte expansão, tem sistematicamente surpreendido para cima, em meio a políticas que têm elevado a renda disponível dos brasileiros.

O desemprego está em mínimas históricas, o rendimento médio atingiu recorde e a inflação, incluindo a de alimentos, arrefeceu o suficiente para que os juros comecem a cair no próximo mês, como já sinalizou o Banco Central.

O quadro tem ajudado a reforçar o apoio a Lula, que está à frente de adversários com margem de quatro a sete pontos percentuais em pesquisas recentes que simulam cenários de segundo turno para a eleição de outubro.

A esse quadro mais favorável soma-se a nova isenção do IR para salários mensais de até R$5 mil, em vigor desde a folha de pagamento de janeiro e que passou a ser sentida no bolso dos brasileiros nos últimos dias.

Como a renda extra será canalizada para trabalhadores com maior propensão a gastar do que poupar, o governo espera que a medida injete cerca de R$ 28 bilhões na economia neste ano.

No entanto, muitos economistas são céticos quanto aos benefícios de longo prazo da política, argumentando que o Brasil deveria ampliar sua base tributária para lidar com a dívida pública em rápida expansão.

“É política ruim economicamente, mas gera votos”, avaliou Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central e atual diretor de macroeconomia do Asa.

Ele questionou a conveniência de uma desoneração tributária para a classe média, com pouco resultado prático para a diminuição da desigualdade no País, em contraposição a medidas que poderiam gerar crescimento e impulsionar a produtividade.

Consumo

Kanczuk afirmou que o estímulo tende a se converter rapidamente em consumo, inclusive por meio da expansão do crédito, à medida que os bancos antecipam uma renda maior das famílias. Ele projeta um impulso de 0,2 ponto percentual ao crescimento econômico neste ano, com efeito semelhante sobre a inflação.

Com a isenção do IR ampliada, cerca de 11,3 milhões dos 25,4 milhões de brasileiros que pagaram Imposto de Renda no ano passado – aproximadamente 44% – deixaram de recolher o tributo, estimou a Receita Federal à Reuters. Outros 5,7 milhões tiveram redução do imposto, já que os descontos foram estendidos para rendas de até R$7.350 ao mês.

O encolhimento da base expõe o quanto as receitas públicas da maior economia da América Latina seguem ancoradas em um modelo que tributa proporcionalmente muito mais o consumo de bens e serviços do que a renda.

Também reflete a prioridade que Lula passou a dar a brasileiros com mais recursos após ter inicialmente direcionado o gasto público a programas que beneficiaram sobretudo os mais pobres, incluindo transferências de renda sob o Bolsa Família, assistência a idosos e pessoas com deficiência via Benefício de Prestação Continuada (BPC), subsídios ao gás de cozinha e auxílio financeiro para estudantes do ensino médio de baixa renda.

Nos últimos anos, a classe média brasileira deslocou-se de forma acentuada para a direita, com uma parcela expressiva apoiando o ex-presidente Jair Bolsonaro, atraída por sua agenda de lei e ordem, valores sociais conservadores e diminuição de encargos para empreendedores.

Em 2025, fontes do Ministério da Fazenda disseram que, para também alcançar famílias de renda média, o governo Lula calibrou políticas, como a expansão de financiamentos habitacionais subsidiados.

Reportagem distribuída pela Reuters

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