Pedido de recuperação judicial do Trebeschi expõe crise no agro
Instabilidade no mercado do agronegócio. Com passivo de R$ 1,27 bilhão, o Grupo Trebeschi – um dos maiores produtores de tomates do País – protocolou pedido de recuperação judicial com valor da causa fixado em R$ 637 milhões. O pedido evidencia a crise vivida no agronegócio e que tem alavancado os pedidos de recuperação judicial de grandes empresas que atuam no setor. A crise vivenciada pelo grupo é atribuída a fatores externos, como perdas produtivas em função do clima, juros elevados, variação dos preços das commodities e custos altos.
O sócio-fundador e CEO do Grupo Trebeschi, Édson Trebeschi, explica a decisão: “Construímos essa trajetória com muito trabalho, seriedade e visão de longo prazo. A recuperação judicial é uma medida necessária neste momento para proteger a operação, preservar os empregos, honrar compromissos e dar ao grupo a oportunidade de reorganizar sua estrutura financeira e seguir produzindo com a qualidade já atestada nesses mais de 50 anos. Importante dizer que hoje não existe qualquer risco de desabastecimento de produtos Trebeschi, pelo contrário, a recuperação judicial nos dará maior liquidez e possibilidades de melhorar ainda mais nossa distribuição perante os clientes”.
Com processo protocolado na 1ª Vara Cível da Comarca de Araguari, cidade onde a empresa foi fundada, no Triângulo Mineiro, o Grupo Trebeschi atua na produção e comercialização de grãos e hortaliças, além de desenvolver atividades nos segmentos de transporte e logística.
O sócio da Dasa Advogados, escritório especializado em reestruturação de empresas, e representante da Trebeschi na recuperação judicial, Daniel Amaral, aponta que a recuperação judicial é uma medida legal voltada à reorganização do passivo e à preservação da atividade produtiva. “O objetivo é reestruturar o endividamento, adequar o fluxo de caixa e permitir a continuidade das operações. Vamos utilizar um ambiente jurídico próprio para renegociar dívidas de forma organizada e transparente”, reforça.
O grupo é responsável por uma área cultivada de aproximadamente 17,69 mil hectares, dos quais 2,07 mil hectares são destinados ao cultivo de tomate convencional, batata (indústria e semente), alho e cebola. Já outros 15,6 mil hectares são voltados à produção de soja, milho, sorgo, trigo e café.
O Grupo Trebeschi atribuiu as dívidas a problemas vivenciados desde 2021, que vão desde os efeitos pós- pandemia de Covid19, como aumento expressivo dos preços de fertilizantes e defensivos, até as intempéries climáticas – geadas, secas, frio intenso – que provocaram grandes prejuízos. A empresa conviveu ainda com queda de demanda e do preço das commodities (soja e milho). Outro fator relevante foi o crescimento acelerado dos juros. Tudo isso resultou em margens de lucro apertadas ou negativas. O passivo total chega a R$ 1,27 bilhão, superior aos ativos de R$ 287 milhões.
“Os juros elevados foram um fator determinante, sobretudo porque o setor depende intensamente de crédito para custeio. A elevação do custo financeiro agravou um cenário já fragilizado por clima e mercado”, analisa Amaral.
No que diz respeito aos impactos em investimentos e na preservação dos empregos, Amaral explica que a prioridade do grupo é a preservação da operação e dos empregos. Segundo ele, o grupo possui impacto relevante na economia, com mais de 3 mil colaboradores diretos e indiretos: “No contexto de crise, é natural que haja a revisão de investimentos e a postergação de expansão. Contudo, a recuperação judicial foi justamente proposta para evitar medidas mais drásticas, como paralisações ou cortes estruturais mais severos, preservando a atividade produtiva e a cadeia econômica regional”.
Pedidos de recuperação judicial crescem em níveis recordes no agronegócio
Assim como no Grupo Trebeschi, conforme o Serasa Experian, datatech do Brasil, os juros elevados atrelados à queda dos preços internacionais de grãos, clima e aos custos de produção elevados impactaram de forma negativa a margem financeira do agronegócio e acarretaram no aumento das solicitações de recuperação judicial no setor. Em 2025, os pedidos em Minas Gerais cresceram 41%, somando 196 solicitações. No Brasil, foram 1.990 solicitações, alta de 56,4%.
O diretor de Ciência de Dados Agro da Serasa Experian, Frederico Poleto, explica que esses pedidos de são, em grande parte, a etapa final de um processo mais amplo de deterioração financeira que começou com o aumento da inadimplência. Ele destaca que a Serasa tem registrado níveis recordes de inadimplência e de recuperações judiciais no Brasil de forma geral. Isso também tem acometido o agronegócio.
“Do ponto de vista de mercado, o agro viveu um choque relevante nos últimos anos. Entre 2020 e 2022, por exemplo, a soja registrou preços historicamente elevados, enquanto os custos estavam baixos. Em paralelo, os financiamentos de crédito, investimentos e compra de máquinas avançaram forte, favorecendo a expansão e a alavancagem. Mas, a partir de 2022, houve reversão do cenário, com aumento da oferta global, queda dos preços das commodities, alta persistente dos custos de produção e encarecimento dos financiamentos”, aponta Poleto.
Crise do agronegócio é resultado de intempéries climáticas, embates globais e encarecimento e escassez de crédito
O CEO da Siegen Consultoria, Alexandre Temerloglou, corrobora que a crise vivenciada pelo setor e o aumento dos pedidos de recuperação judicial foram causados por vários fatores, tendo como os principais clima, embates globais, além do encarecimento e escassez de crédito.
“A primeira frente vem de um fator que faz parte do risco do negócio, que é o climático, com eventos cada vez mais severos e provocando perdas nas safras. Isso desencadeia uma crise no setor, pois, em muitos casos, a safra já está atrelada a algum contrato financeiro e, quando a quebra ocorre, os contratos financeiros são impactados e devem ser revistos”, reforça o especialista.
Uma segunda frente vem de fatores externos e mais recentes, oriundos dos embates globais, como a guerra entre Estados Unidos e Irã: “Daquela região vem grande parte de implementos para fertilizantes, o que causa aumento em um dos principais insumos para o setor . O petróleo também tem sofrido forte alta e impactando toda cadeia. O produtor, nem sempre, consegue repassar de forma eficiente os aumentos de custos, o que gera mais pressão em seu negócio”.
Por fim, conforme Temerloglou, a falta de crédito para o setor tem se acentuado. Com receio dos impactos de custos, climáticos e econômicos – como a alta taxa de juros – as instituições financeiras recuam na concessão de crédito, além desta ficar muitas vezes mais cara.
“Neste contexto, a recuperação judicial ou a extrajudicial, se mostram boas ferramentas a depender do perfil da dívida. Estas permitem um ajuste global da dívida, de forma a readequar o fluxo de carregamento e pagamento de dívidas. É uma oportunidade para reequilibrar a estrutura de forma a tornar o negócio novamente estável enquanto as dívidas ficam congeladas”, finaliza.
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