Café sem Filtro

O crescimento do café no digital

Iguaria atualmente circula entre algoritmos e timelines, rompendo barreiras geográficas e sociais
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A ONU (Organização das Nações Unidas) oficializou o Dia Internacional do Café, celebrado em 1º de outubro, reforçando o papel econômico, social e cultural da bebida no mundo. Um caminho que teve início séculos atrás, com o cultivo da iguaria na Etiópia, passando pelo o mundo árabe e a se consolidando nas cafeterias da Europeias. Nas redes, bastam alguns minutos de imersão para encontrar vídeos hipnotizantes de extrações perfeitas, latte arts milimetricamente desenhadas e setups domésticos que mais parecem cenários de estúdio.

O café especial, ganhou em estética, narrativa e, principalmente visibilidade.

O aumento do consumo de café especial caminha lado a lado com a ascensão de criadores de conteúdo dedicados ao tema, em um fenômeno que ecoa outras transformações históricas do café, como sua popularização no Brasil no século XIX e sua industrialização no século XX. Baristas, entusiastas e curiosos passaram a compartilhar suas rotinas, métodos de preparo, testes de equipamentos e, claro, suas opiniões (muitas vezes polêmicas). O café, que antes pertencia somente a bolhas técnicas ou ambiente de cafeterias, hoje circula com facilidade entre algoritmos e timelines, rompendo barreiras geográficas e sociais.

Há, sem dúvida, um efeito positivo nisso tudo. Nunca se falou tanto sobre origem, torra, moagem, extração, temas que, historicamente, se concentravam no agronegócio. Termos como “acidez”, “corpo” e “notas sensoriais” começaram a fazer parte do vocabulário de quem, até pouco tempo, só diferenciava o café entre “forte e fraco”. As redes sociais ajudaram também a educar o paladar brasileiro, ou, pelo menos, despertaram a curiosidade para ele. O acesso à informação, antes concentrado em cursos e livros hoje tem livre acesso, na palma da mão.

Mas essa nova dinâmica também trouxe uma transformação importante na forma como o café é percebido visualmente: A crema precisa ser perfeita, o leite deve ter textura impecável, o método precisa ser executado com precisão quase coreografada. Tudo isso funciona muito bem em vídeo, mas pra nós, “Coffee lovers” nem sempre traduz o que realmente importa: a memória do paladar de um café perfeito na xícara.

Com o crescimento desse cenário, também vemos uma explosão de perfis de influenciadores digitais. O influenciador democratiza o acesso à informação, explica como métodos podem ser replicados, ensina receitas, facilita o entendimento sobre equipamentos que antes eram vistos somente em cafeterias (resultado isso tem sido a popularização das máquinas domésticas, como as máquinas manuais da italiana Gaggia, por exemplo). Métodos e máquinas se tornam objetos de desejo, e assim cresce o consumo influenciado em massa.

No fim das contas, o café especial vive um momento de expansão raro. Está mais acessível, mais presente e mais desejado. Fico na torcida de que o próximo passo seja um movimento de equilíbrio: usar a estética como porta de entrada, sem perder a essência e a profundidade que só um bom café afetivo pode nos proporcionar.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Juliane Maciel

Diretora executiva na Loop Vídeo, diretora de negócios na Oitenta Café, sócia na Oliva Comunicação, embaixadora do Capitalismo Consciente, conselheira consultiva, articulista no OCI, colunista no Diário do Comércio e entusiasta do mundo dos cafés.

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