Agronegócio

Agro adota cautela e evita previsões de negócios em feiras de máquinas

Incertezas políticas e econômicas levam o setor a frear expectativas, com feiras importantes abstendo-se de divulgar faturamentos
Agro adota cautela e evita previsões de negócios em feiras de máquinas
Eficiência no campo: grãos sendo transferidos para transporte. | Foto: REUTERS/Diego Vara

Incertezas políticas e econômicas fizeram o agro adotar cautela, e até o silêncio em relação a negócios, nos primeiros meses de 2026 nas feiras agrícolas, suas principais vitrines.

Alguns dos maiores eventos, em que são apresentados lançamentos tecnológicos e que movimentam centenas de milhares de visitantes todos os anos, deixaram de divulgar expectativas de negócios, num ano em que uma entidade do setor de máquinas já apontou redução nas vendas para produtores rurais.

As duas feiras com os maiores faturamentos no país nos últimos anos, a Agrishow, em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo), e a Tecnoshow, em Rio Verde (GO), pela primeira vez não divulgaram previsões de faturamento para a edição deste ano. A Expodireto, realizada em Não-Me-Toque (RS), já não divulga dados de negócios desde 2025.

Os preços dos grãos —soja e milho—, a valorização do real (que impacta os juros) e a elevada taxa de juros no país estão entre os principais motivos para a desaceleração do setor. Outros fatores que contribuem são a inadimplência, a dificuldade de obter crédito e as incertezas geradas num ano eleitoral novamente polarizado no país, segundo produtores rurais, executivos de fabricantes e dirigentes de associações.

O cenário de pé no freio do agro é registrado desde o último quadrimestre do ano passado. A expectativa da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) de faturamento para 2026 é de uma redução de 8% nos negócios, em comparação com o ano passado, e com viés de baixa.

Em encontro no mês passado na cidade gaúcha, Pedro Estevão, presidente da Câmara de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, disse que nos últimos seis meses o faturamento do setor caiu 7% em relação a igual período do ano anterior. Só em janeiro, recuou 15,6%.

Realizada na última semana na cidade goiana, a Tecnoshow, promovida pela cooperativa Comigo, começou sem previsão financeira e sem cerimônia oficial de abertura, após ter gerado R$ 10 bilhões em intenções de negócios no ano passado (R$ 10,41 bilhões, corrigidos).

Ao término do evento, sexta-feira (10), o presidente do conselho de administração da cooperativa, Antônio Chavaglia, disse que o ano está sendo desafiador, com cenário de incertezas e custos elevados, e divulgou percentual de queda nos negócios, sem citar o número absoluto.

“Isso se refletiu na dinâmica da feira, com redução em torno de 30% no volume de comercialização em relação às edições anteriores […] Mais do que os resultados imediatos, o que vemos aqui é a resiliência do produtor rural, que segue buscando informação, tecnologia e boas oportunidades para tomar decisões mais seguras”, disse.

Já o presidente-executivo, Dourivan Cruvinel de Souza, afirmou na abertura que era preciso que o produtor rural adotasse cautela. “Aquele que precisa, a gente vai incentivar e até ajudar o crédito. Agora, não vamos incentivar ninguém também a sair comprando coisa que não é do dia a dia”, disse.

A organização da Agrishow (Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação), por sua vez, apresentou, no início deste mês, as novidades para a edição deste ano, que ocorrerá entre os dias 27 e 1º de maio em Ribeirão Preto.

Assim como em Rio Verde, não foi divulgada a expectativa de negócios gerados. Em 2025, a feira bateu recorde, ao alcançar R$ 14,6 bilhões (R$ 15,2 bilhões, atualizados).

O número, na avaliação do presidente da Agrishow, João Marchesan, “é consequência de tudo que vai acontecer”. “No dia do encerramento, dia 1º, lá por volta das 15h, 16h, nós vamos dar os números certinhos”, afirmou.

Segundo ele, a feira é emblemática por apresentar os principais lançamentos agrícolas e o setor não está vendo resultado econômico a curto e médio prazos, mas num horizonte mais longo.

Quando decidiu não divulgar balanço de negócios, a organização da Expodireto Cotrijal afirmou que o objetivo era evitar “competição” com outros eventos agrícolas realizados no estado, como a Expointer.

A única das grandes feiras a divulgar balanço de vendas foi a Show Rural Coopavel, realizada em fevereiro em Cascavel (PR), e que anunciou R$ 7,5 bilhões em intenções de negócios, recorde histórico para o evento e na contramão do divulgado pela Abimaq.

Em 2025, a feira movimentou R$ 7,05 bilhões (R$ 7,41 bilhões, corrigidos pela inflação), segundo a organização. A Câmara de Máquinas da Abimaq informou que as intenções de compras de suas associadas que participaram da feira e que responderam à pesquisa da entidade caíram 15%.

Menos público, mais novidades

A feira em Rio Verde teve 700 expositores, dos quais 16 marcas de automóveis, mostrando um avanço no segmento de veículos elétricos, segundo seu presidente-executivo.

O evento reuniu 120 mil pessoas, 20 mil a menos do que no ano passado, mas, apesar da redução no faturamento e no número de visitantes, apresentou diferentes soluções ligadas ao agro.

A Vittia, empresa de biotecnologia sediada no interior paulista, levou à Tecnoshow o Bio-imune, primeiro do gênero registrado para ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi), uma das piores doenças da soja, e que combate até 22 alvos. A empresa diz ver a feira como um “acelerador de negócios e conhecimento”.

A FMC também levou para a feira soluções para soja e milho. Uma delas, o Sofero Fall, atua na interrupção do ciclo reprodutivo da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda). A tecnologia, conforme a fabricante, reduz a formação de novas gerações e protege a lavoura de forma seletiva, sem impacto sobre inimigos naturais.

A feira também atraiu outros tipos de negócio, como o transporte ferroviário. A Rumo, maior operadora de ferrovias de cargas no Brasil, focou a diversificação de suas cargas no Centro-Oeste, transportando, além de grãos, fertilizantes, combustíveis, farelo e bauxita.

No ano passado, a Rumo movimentou em Goiás cerca de 5,7 milhões de toneladas de grãos originados no estado, com 28% de participação na exportação estadual. O terminal de Rio Verde, onde ocorreu a Tecnoshow, tem capacidade para movimentar até 11 milhões de toneladas por ano.

Rio Verde contabilizou 128 pousos de aeronaves no aeroporto local durante a feira, além de outros 20 no heliponto do CTC (Centro Tecnológico Comigo), onde a Tecnoshow foi realizada.

Conteúdo distribuído por Folhapress

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