Café solúvel deve ser favorecido pela tarifa de 15% dos EUA
A nova tarifa de 15% imposta globalmente pelos Estados Unidos sobre produtos importados, caso entre em vigor, tende a favorecer o setor exportador de café solúvel. Isso porque os embarques do produto eram taxados em 50% desde agosto de 2025, o que provocou uma forte queda nas negociações com o país, que é o maior comprador do café solúvel. O café verde e o café torrado provavelmente seguirão sem taxação, o que será confirmado após a publicação oficial com os anexos.
A imposição de uma nova tarifa global por parte do presidente norte-americano Donald Trump veio após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que derrubou o tarifaço. Logo em seguida, Trump anunciou uma nova tarifa de 10%, e o índice foi reajustado para 15% no último sábado (21). O percentual ficou dentro do limite previsto na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite a aplicação de tarifas por até 150 dias antes de avaliação pelo Congresso. A medida começa a valer às 2h01 (horário de Brasília) de terça-feira (24).
O anúncio agradou o setor produtivo do café solúvel. O diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Aguinaldo Lima, explica que os Estados Unidos são os maiores clientes de café solúvel do Brasil e com o novo índice global, a expectativa é recuperar a competitividade
“Os Estados Unidos são os nossos maiores clientes há mais de 60 anos. Praticamente 20% daquilo que exportávamos ia para os EUA, um mercado de mais de US$ 250 milhões, e seria uma perda terrível para o setor. Era uma preocupação muito grande e havia um desânimo com relação à manutenção dessas tarifas. Agora, a gente sai de uma situação em que nós tínhamos 50% de tarifa para um patamar novo, não importa se é 10%, se é 15%. Isso coloca todo o mundo em circunstâncias iguais. Então, quando você tem circunstâncias iguais de competitividade, fica muito mais justo o mercado”, explica.
Queda nos embarques de café
Ainda segundo Lima, entre agosto de 2025 e janeiro de 2026 houve uma queda bastante robusta nos embarques de café solúvel para os Estados Unidos. Os dados da Abics mostram que em 2025 os embarques totais de café solúvel do Brasil movimentaram o equivalente a 3,7 milhões de sacas, uma queda de 10,6% em comparação com o ano anterior. Os embarques para os EUA recuaram 28% no ano, pressionados pelo declínio de 40% entre agosto e dezembro, período de vigência do tarifaço de 50%.
Já em janeiro, a exportação de café solúvel registrou baixa de 32 pontos percentuais na comparação anual. No primeiro mês deste ano, foram remetidas 249.148 sacas ao exterior. “Durante o período de tarifa, que foide agosto a janeiro deste ano, tivemos uma queda de praticamente 50% e a situação foi ficando pior a cada mês naquele que era o nosso maior mercado”.
Brasil precisa de acordos bilaterais e boas relações com os EUA
O diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, destacou que a tarifa global é importante para o Brasil, já que traz isonomia em relação às demais origens produtoras de café, mas que o movimento provocado pelo presidente Donald Trump mostra que há uma imprevisibilidade muito séria no mercado.
“Diante de todos os desdobramentos, estamos vendo mudanças nas tarifas dos produtos do mundo para o mercado norte-americano. Para funcionar bem, o mercado precisa de previsibilidade diante das operações no presente, operações do futuro e as bolsas globais. O que a gente tem visto é uma falta de previsibilidade”, aponta.
O dirigente do Cecafé defende a necessidade de acordos bilaterais. “O Brasil precisa achar meios de firmar acordos bilaterais e ter uma boa relação, o que pode acontecer no encontro dos presidentes do Brasil e EUA, Lula e Trump, em março deste ano”.
O Cecafé está acompanhando de perto a situação, devido a uma investigação na Seção 301 no âmbito do United States Trade Representative (USTR), exclusiva para o Brasil, e que apura questões de desmatamento e desrespeito às questões sociais. Em tese, essas questões dariam ao Brasil maiores condições de competitividade. A investigação tende a ser concluída entre maio e junho deste ano. O Brasil, segundo Matos, participa com algumas organizações fazendo a defesa da imagem do País com dados oficiais, concretos e conclusivos.
“A gente corre risco de o Brasil ter tarifas mais altas e esse risco é complicado porque a gente perde a isonomia. Então, tem que ser dada uma atenção especial à investigação 301. Considerando o conteúdo político de tudo isso, porque, tecnicamente, as argumentações não se sustentam, é tão importante a relação entre os dois países ser boa para atenuar a questão política e, com isso, a conclusão da Investigação 301 ser benéfica para o Brasil”, disse.
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