Cocatrel prevê alta de até 10% na safra de café e R$ 100 milhões em investimentos

Cooperativa reúne 9,5 mil cafeicultores em Minas, investe em infraestrutura e tecnologia e amplia iniciativas de valorização dos cafés especiais e da participação feminina
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Cocatrel prevê alta de até 10% na safra de café e R$ 100 milhões em investimentos
Cooperativa espera receber entre 2 milhões e 2,05 milhões de sacas de café na atual safra, crescimento entre 8% e 10% frente ao ciclo anterior | Foto: Divulgação Cocatrel

A atuação coletiva na compra de insumos, na comercialização da produção e no acesso à tecnologia e à capacitação está entre as estratégias da Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas (Cocatrel) para ampliar a eficiência dos produtores, principalmente pequenos e médios. A cooperativa participará do World Coop Management (WCM), nos dias 19 e 20 de outubro, em Belo Horizonte, maior evento voltado à gestão, estratégia e liderança no cooperativismo da América Latina.

Com sede em Três Pontas, no Sul de Minas, a Cocatrel reúne cerca de 9,5 mil cooperados e espera receber entre 2 milhões e 2,05 milhões de sacas na safra atual, crescimento de 8% a 10% em relação ao ciclo anterior. Segundo o presidente do Conselho de Administração, Jacques Fagundes Miari, o cooperativismo permite ganhos de escala na compra de insumos e melhora as condições de negociação para produtores de menor porte.

“O pequeno e médio produtor, por não alcançar escala de compra, chega a uma revenda e encontra um preço diferenciado. O cooperativismo consegue balizar esses valores e aproximar o custo daquele pago pelos médios e grandes produtores.”

Além da negociação, a Cocatrel oferece assistência agronômica, análises de solo, aluguel de máquinas, serviços financeiros, seguros e apoio para regularização ambiental, além de capacitações. A cooperativa também trabalha para ampliar o acesso a tecnologias e práticas de produção sustentável. A análise de dados e o uso de novas ferramentas estão entre as frentes de atuação para identificar oportunidades de redução de custos e melhorar os resultados das propriedades. Outra frente é o estímulo à sucessão rural, aproximando os jovens da atividade por meio de inovação, gestão e produção de cafés diferenciados.

No pós-colheita, a Cocatrel orienta os produtores sobre procedimentos que influenciam a qualidade da bebida e podem abrir espaço para preços superiores aos do mercado convencional. “Mesmo que o produtor consiga ganhar R$ 30, R$ 40 ou R$ 70 a mais por saca, isso faz muita diferença na renda dele. Pela qualidade, o pequeno produtor consegue ser reconhecido, mesmo sem ter um grande volume de produção.”

Jacques Fagundes Miari
Presidente do Conselho de Administração, Jacques Miari diz que participação no Palco WCM Agro vai permitir compartilhar experiências e discutir eficiência no cooperativismo | Foto: Divulgação Cocatrel

Das 2 milhões de sacas esperadas para a safra atual, a cooperativa estima receber cerca de 400 mil sacas classificadas como cafés comerciais finos e estima entre 150 mil e 200 mil sacas de cafés de altíssima qualidade, que são destinados ao mercado de cafés para cafeterias.

Desde o início de 2025, a cooperativa investiu mais de R$ 33 milhões em obras e melhorias, incluindo armazéns com capacidade para 100 mil sacas, nova sede do departamento Cocatrel Direct Trade (CDT), voltado para exportação de cafés especiais, e melhorias na classificação. Para os próximos quatro a cinco anos, a projeção é investir entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões em ampliações.

A participação no Palco WCM Agro permitirá compartilhar experiências e discutir práticas de gestão e eficiência no cooperativismo. “É um palco de divulgação de ideias e compartilhamento de experiências. Podemos entender como as cooperativas entregam valor aos cooperados e aprender com outros setores sobre como ser mais eficientes.”

Grupo Cafeína Cocatrel fortalece a atuação das mulheres na cafeicultura

No evento, a Cocatrel também apresentará o Cafeína Cocatrel, projeto criado em 2019 para ampliar o protagonismo das mulheres na cafeicultura, com capacitação, melhoria da gestão das propriedades e acesso a mercados que remuneram melhor o café.

Segundo o diretor de Marketing e Relacionamento da Cocatrel, Lúcio Caldeira, a cooperativa tem 2.238 mulheres titulares de lotes, cerca de 24% dos 9,5 mil cooperados. Em 2019, elas representavam 19,7% do quadro. Hoje, aproximadamente 800 mulheres participam diretamente do projeto. “Nosso objetivo é fazer com que as mulheres do agro tivessem protagonismo. Para isso, elas precisavam entender do negócio café, desde o manejo e a produção de qualidade até a comercialização e a gestão financeira”, afirma.

Cafeína Cocatrel
Cafeína Cocatrel tem hoje cerca de 800 mulheres participantes | Foto: Divulgação Cocatrel

Entre as ações desenvolvidas estão cursos, palestras, dias de campo, visitas técnicas e treinamentos sobre produção, pós-colheita, qualidade do café e gestão. O projeto também criou o programa Primeiros Passos, com encontros anuais para mulheres que ingressaram na cafeicultura sem experiência, muitas vezes após herdarem propriedades ou assumirem a atividade familiar.

“Há mulheres que chegaram ao grupo sem saber como conduzir a produção. Elas encontraram um espaço para aprender, trocar experiências e compartilhar soluções. Isso gera pertencimento, mas também mudanças na gestão e nos resultados financeiros”, diz o diretor.

Outra frente é a comercialização, para isso, a Cocatrel identificou compradores internacionais interessados em cafés produzidos por mulheres, com rastreabilidade e identificação da origem. As vendas começaram em 2019, com a exportação do primeiro contêiner do grupo e, atualmente, os cafés já chegam a 24 países. A cooperativa vende blends e lotes identificados com o nome das cafeicultoras, além de comercializar os cafés mais bem pontuados em cafeterias próprias e na loja on-line.

Segundo Caldeira, a valorização dos cafés produzidos por mulheres pode representar de R$ 150 a R$ 200 a mais por saca, em comparação com cafés especiais de padrão equivalente produzidos por homens. O grupo também desenvolve ações sociais e ambientais, com campanhas de arrecadação de alimentos e absorventes para instituições e uso de materiais reciclados em suas atividades.

Para Caldeira, o projeto se tornou uma referência para outras cooperativas interessadas em ampliar a participação feminina no setor. “Conseguimos criar uma comunidade em que as mulheres se apoiam e ganham conhecimento para melhorar a produção. Ao mesmo tempo, encontramos mercados que valorizam o café que elas produzem. O resultado é protagonismo, geração de renda e fortalecimento da atividade”, afirma.

A força do café no cooperativismo de Minas Gerais

Conforme os dados do Sistema Ocemg, Minas Gerais é responsável por quase metade da produção brasileira de café (46%), e as cooperativas têm participação decisiva nesse resultado. Em 2025, quase 64% do café produzido no Estado passou por uma cooperativa, o equivalente a 29% de toda a produção nacional.

O presidente do Sistema Ocemg, Ronaldo Scucato, explica que Minas conta com 52 cooperativas de café, que reúnem cerca de 118 mil cooperados e geram mais de 10 mil empregos diretos. No último ano, essas organizações movimentaram cerca de R$ 50 bilhões, alta de 36% em relação ao ano anterior. Parte dessa expansão financeira está associada à valorização do café, ao crescimento da produção e também ao trabalho efetivo do produtor.

“Esses são números que mostram que nossas cooperativas têm escala para atuar em grandes mercados e, ao mesmo tempo, mantêm milhares de produtores integrados à atividade econômica. Para mim, essa é uma das maiores contribuições do modelo. O café gera receitas expressivas para Minas Gerais, mas é nos municípios produtores que podemos observar seus efeitos sobre o emprego, o comércio e a renda das famílias”.

Scucato ressalta que a organização dos produtores em cooperativas é essencial para a evolução produtiva e financeira. “O produtor de café precisa lidar com oscilações de preços, custos elevados, riscos climáticos e exigências cada vez maiores dos compradores. Quando está organizado em uma cooperativa, encontra melhores condições para enfrentar essas situações”.

Sobre o autor

Michelle Valverde

Repórter do Diário do Comércio desde 2009. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva.


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