Alimentos sobem sob influência do clima após três meses em queda; tomate aumenta quase 38%
Após três meses consecutivos em queda, os preços da alimentação no domicílio subiram 0,96% em setembro no Brasil, apontam dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) divulgados nesta sexta-feira (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Conforme o órgão, a volta da inflação da comida está associada à oferta menor de produtos devido ao clima adverso. Setembro teve chuvas intensas e até episódios de frio no país.
O IBGE não confirmou se o El Niño já afeta o cenário de preços, mas economistas de fora do instituto dizem ver impactos iniciais do fenômeno atuando sobre o custo dos alimentos.
O evento climático é um desafio para a produção agropecuária porque altera a distribuição das chuvas e mexe nas temperaturas no planeta. “Parte dessa inflação já tem a ver com o El Niño, que não chegou ao pico ainda. É um início de preocupação. O excesso de chuvas afeta muito intensamente o hortifrúti”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados e colunista da Folha.
Após a trégua na metade do ano, a inflação dos alimentos costuma acelerar com o passar dos meses devido ao surgimento de mais desafios climáticos para a produção, segundo Vale. “Tem esse efeito sazonal de entrada em um período climático mais adverso e, neste momento, a gente já tem o efeito do El Niño. Ele deve ter o pico no quarto trimestre. Não afeta só a economia brasileira, afeta o mundo inteiro.”
Tomate sobe quase 38%
O tomate foi o alimento que mais pressionou o IPCA. Os preços tiveram alta de 37,76% em setembro. A batata-inglesa apareceu na sequência, com aumento de 24,07%. Outras pressões vieram da cebola (10,14%), do arroz (4,56%) e das carnes (0,63%).
“Teve mais frio, mais chuva”, disse Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IPCA.
“O tomate, com o clima mais frio, demora mais para amadurecer. As chuvas, para a batata, provocaram problema na colheita. Isso reduz a oferta, chegando a um preço mais elevado para o consumidor.”
O pesquisador do IBGE adotou cautela na avaliação sobre o El Niño e disse não ter elementos suficientes para cravar se o evento começou a influenciar o custo da alimentação.
“Mas a gente tem visto bastante chuva no Sul do país, uma área produtora de arroz, e também em locais de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro em setembro”, disse.
“Quem está aqui no Rio sabe: foi um mês em que a gente nem viu o sol. A gente está com carência de vitamina D”, brincou o técnico. A sede do IBGE fica na capital fluminense.
Para Cláudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos Capital, os reflexos do El Niño já estão acontecendo. Em relatório, ele afirmou que a aceleração dos preços de produtos in natura reflete os impactos do evento climático.
O economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, também disse que já é possível atrelar uma parte do quadro ao fenômeno, embora a maior preocupação ocorra a partir de outubro.
Alimentos que mais pressionaram o IPCA de set.26
- Variação (%) – Impacto (p.p.)
- Tomate – 37,76 – 0,08
- Batata-inglesa – 24,07 – 0,04
- Cebola – 10,14 – 0,02
- Arroz – 4,56 – 0,02
- Carnes – 0,63 – 0,02
Fonte: IBGE
Inflação é tema eleitoral
A inflação é um dos temas em evidência na corrida presidencial em curso no Brasil.
Como mostrou a Folha, o governo Lula (PT) chegou ao primeiro turno das eleições com a menor alta acumulada pelo IPCA em um mandato presidencial desde o início do Plano Real a moeda entrou em circulação em julho de 1994.
- Leia também: Cesta básica de BH sobe 1,44% em setembro e chega a R$ 768,10; veja itens que mais encareceram
Apesar disso, o petista ficou atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na votação de domingo (4) e tem o desafio de tentar reverter a vantagem do adversário. O segundo turno está agendado para 25 de outubro.
Para analistas, um dos fatores que atrapalham Lula é o mal-estar de parte da população associado ao nível dos preços de itens básicos, como os alimentos. Esses produtos subiram menos no terceiro governo do petista, mas a variação incidiu sobre um patamar de custos que já pesava no orçamento familiar desde a pandemia.
Conforme o IPCA, comer fora de casa também ficou mais caro em setembro. A alta da alimentação fora do domicílio acelerou a 0,48%, após marcar 0,36% em agosto. O cálculo abrange os serviços de estabelecimentos como bares, lanchonetes e restaurantes.
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