Fim da escala 6×1: especialistas orientam empresas sobre custos, equipes e jornada
Após a aprovação da proposta de fim da escala 6×1 no Senado, na noite dessa quarta-feira (14), as empresas já podem começar a avaliar os possíveis impactos da redução da jornada de trabalho. Entre os desafios estão a manutenção das operações e da produtividade sem redução salarial, além da necessidade de preservar a saúde financeira dos negócios. O Diário do Comércio ouviu especialistas sobre os principais pontos que os gestores devem considerar no planejamento.
O diretor executivo da Confirp Contabilidade, Richard Domingos, recomenda que as empresas comecem a planejar e avaliar os possíveis impactos da mudança. Segundo ele, a redução da jornada semanal, sem corte salarial, diminui o número de horas de trabalho disponíveis e pode elevar o custo por hora trabalhada. O efeito final, no entanto, dependerá do setor, da estrutura operacional, da capacidade de reorganização das equipes e dos ganhos de produtividade de cada negócio.
“Estamos diante de uma mudança que pode alterar significativamente a estrutura de custos e a organização operacional de diversos setores. As empresas precisam começar a fazer suas projeções e entender como a redução da jornada afetará seus negócios”, afirma.
O CEO da Avante Assessoria Empresarial, Benito Pedro Vieira Santos, orienta que uma das primeiras medidas seja calcular quantos funcionários serão necessários para manter as operações. Isso porque, se não conseguirem compensar os custos adicionais, as empresas poderão precisar reduzir suas margens de lucro, rever investimentos ou repassar parte das despesas aos preços. “Em determinados negócios, a redução da jornada poderá significar a necessidade de ampliar o quadro de funcionários, o que representa também encargos, benefícios, treinamento e custos de gestão”, comenta.
Santos ressalta que os maiores impactos tendem a ocorrer em atividades que exigem funcionamento prolongado ou contínuo, como varejo, logística, saúde, segurança, limpeza e hotelaria.
Automação pode ajudar empresas a compensar redução da jornada
A revisão de processos operacionais, a automação e o uso de ferramentas digitais estão entre as alternativas que podem ser avaliadas pelas empresas, segundo o diretor de outsourcing da Confirp, Carlos Junior. Ele explica que sistemas de gestão, inteligência artificial, autoatendimento e automação de tarefas repetitivas podem ajudar a compensar parte da redução da jornada, desde que sejam adequados à atividade e acompanhados de mudanças na organização do trabalho.
O especialista alerta, porém, que a tecnologia não é suficiente para compensar a redução da jornada em todas as atividades. “Em funções que dependem de atendimento presencial, cuidado, segurança ou execução manual, a substituição do trabalho humano tem limites”, diz.
Os investimentos em automação também exigem recursos financeiros, planejamento e, em muitos casos, capacitação dos funcionários. Empresas que não dispõem dessas condições podem enfrentar mais dificuldades para aumentar a produtividade no curto prazo.
“Automatizar determinadas funções pode ser mais vantajoso economicamente do que simplesmente aumentar a equipe. A empresa precisa identificar onde estão as atividades repetitivas e manuais e avaliar ferramentas que permitam liberar as pessoas para tarefas de maior produtividade”, afirma o diretor da Confirp.
Mudança na jornada também exigirá adequação trabalhista
A advogada e coordenadora da área trabalhista do escritório Barroso Advogados Associados, Vivian Campos Massella, alerta que uma eventual mudança na jornada exigirá atenção jurídica. Segundo ela, caso a nova regra entre em vigor, as empresas deverão avaliar seus efeitos sobre contratos de trabalho, escalas de revezamento, controles de jornada, bancos de horas, acordos e convenções coletivas.
Segundo a advogada, a adaptação não ocorrerá da mesma forma em todos os setores. Cada empresa precisará considerar suas necessidades operacionais, as normas aplicáveis e os instrumentos coletivos vigentes. “Uma alteração dessa magnitude impacta contratos de trabalho, acordos coletivos, escalas de revezamento, controles de jornada e políticas internas. Não é uma adaptação simples e exigirá planejamento cuidadoso por parte das empresas”, afirma.
Nesse cenário, a especialista destaca o papel dos sindicatos na negociação das condições de trabalho. “Os sindicatos poderão negociar jornadas de trabalho, bancos de horas, escalas, turnos e intervalo intrajornada, segundo o artigo 611 da CLT”, conclui.
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