Fim da escala 6×1 preocupa bares e restaurantes às vésperas das confraternizações

Adaptação à jornada 5x2, prevista para dezembro, deve elevar custos com pessoal justamente no período de maior movimento; empresários temem dificuldades para reforçar equipes e preservar a rentabilidade das festas de fim de ano
Fim da escala 6×1 preocupa bares e restaurantes às vésperas das confraternizações
Foto: Divulgação/ Maria das Tranças

A proximidade das festas de confraternização de fim de ano traz um desafio adicional para bares e restaurantes de Belo Horizonte: a adaptação às mudanças na jornada de trabalho, com a adoção da escala 5×2 e redução da carga horária para 42 horas semanais a partir de 15 dezembro. Em um dos períodos de maior demanda para o setor, empresários temem que a necessidade de reorganizar as equipes e ampliar as contratações eleve os custos operacionais, comprometa a capacidade de atendimento e reduza a rentabilidade dos estabelecimentos.

A preocupação é que a mudança coincida com a temporada de confraternizações de empresas, grupos de amigos e famílias, quando a procura por reservas e eventos costuma aumentar. Além da necessidade de contratar trabalhadores temporários, os estabelecimentos terão de avaliar como reorganizar as folgas dos funcionários fixos sem comprometer o funcionamento das casas.

No restaurante Maria das Tranças, no bairro São Francisco, região da Pampulha, o proprietário Ricardo Rodrigues estima que a mudança na jornada possa representar um aumento de até 20% na folha de pagamento, dependendo do porte do estabelecimento. A casa, com mais de 70 anos de mercado, conta atualmente com 45 funcionários e costuma ampliar o quadro entre 10 e 15 pessoas durante o período de maior movimento.

“Por si só, o 5×2 já traz para a gente uma necessidade de contratação. E ele entra exatamente na época em que teríamos um aumento natural da demanda por mão de obra”, afirma.

O empresário avalia que a combinação entre a mudança trabalhista e a dificuldade de encontrar profissionais disponíveis pode comprometer o resultado financeiro das confraternizações. Segundo ele, a procura por trabalhadores já esbarra em exigências relacionadas à jornada. Rodrigues relata que candidatos têm questionado, antes mesmo de participar de entrevistas, se o restaurante já adotou a escala 5×2.

Diante desse cenário, Rodrigues projeta uma retração de aproximadamente 10% na movimentação de fim de ano em relação a 2025. A avaliação considera também um ambiente de maior cautela entre empresas e consumidores. O restaurante já oferece pacotes para confraternizações, mas não pretende lançar promoções específicas ou reduzir preços para atrair grupos.

Imagem mostra fachada de restaurante
Com mais de 70 anos de mercado, restaurante Maria das Tranças, no bairro São Francisco, projeta uma retração de aproximadamente 10% na movimentação de fim de ano em relação a 2025. | Foto: Divulgação/ Maria das Tranças

A estratégia será manter as opções já disponíveis e intensificar a divulgação nas redes sociais. Para o empresário, a combinação de custos maiores com mão de obra e perspectivas de aumento da carga tributária limita a possibilidade de oferecer condições promocionais.

Custos maiores podem reduzir ganhos com aumento de reservas

Na Rede A Granel, que possui seis unidades em Belo Horizonte, Contagem e Confins, na Região Metropolitana (RMBH), a preocupação também está na possibilidade de o crescimento da receita não se traduzir em um resultado financeiro proporcional. A sócia do grupo, Cecília Ramirez, relata que os estabelecimentos Berilo Cozinha e Drinks, na Savassi (região Centro-Sul) e A Granel, unidade do bairro Coração Eucarístico (região Noroeste) – ambos integrantes da rede -, já recebem solicitações de orçamento para confraternizações desde o início de outubro.

A média tem sido de oito a dez pedidos por semana. A expectativa é concluir a organização das reservas até 10 de novembro, quando a capacidade de atendimento começa a limitar a entrada de novos grupos.

As duas casas, considerando os diferentes ambientes, somam aproximadamente 600 lugares. No Berilo, o espaço privativo do segundo andar comporta até 60 pessoas. O estabelecimento também recebe reservas para os ambientes convencionais, sem necessidade de exclusividade.

A expectativa de Cecília é de crescimento de até 10% no faturamento de fim de ano em relação ao mesmo intervalo de 2025. A empresária, entretanto, pondera que o avanço poderá ser acompanhado de uma elevação dos custos operacionais, principalmente pela necessidade de reforçar as equipes em um momento de mudanças na jornada.

“Isso para a gente é muito ruim. É um impacto financeiro na operação, porque vamos ter que aumentar a equipe em um momento em que naturalmente já teríamos demanda por freelancer”, afirma.

A empresária explica que a rede tradicionalmente reforça as equipes, principalmente de quinta-feira a sábado. A necessidade de ampliar as folgas dos funcionários fixos, entretanto, exige uma nova avaliação da quantidade de profissionais necessários. Até o momento, a empresa ainda não definiu como será feita a reorganização. “Você pode até ter um aumento de movimento, mas não tem um aumento de resultado”, ressalta.

Para atrair empresas e grupos, o Berilo oferece condições diferenciadas conforme o perfil da confraternização, como isenção do couvert artístico ou concessão de um welcome drink.(bebida de boas-vindas). No espaço privativo, o atendimento é personalizado, com cardápio elaborado de acordo com a demanda do contratante e pagamento antecipado.

As solicitações recebidas até agora estão divididas entre empresas, responsáveis por aproximadamente 60% da procura, e famílias e grupos de amigos, que representam os outros 40%.

Demanda de fim de ano deve elevar receita mensal a R$ 440 mil em restaurante baiano

No Alguidares, restaurante de culinária baiana no bairro Sion, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, a sócia-proprietária Deusa Prado espera receber entre 12 e 15 grupos empresariais durante a temporada de confraternizações. Os encontros costumam ocorrer às terças e quartas-feiras e começam a ganhar força a partir de novembro.

A casa conta com 120 cadeiras e mantém uma sala fechada para eventos, estrutura que favorece a realização de encontros corporativos. Segundo a empresária, parte das reservas já está confirmada.

Apesar da expectativa de aumento da demanda, a empresária avalia que o impacto da mudança na jornada de trabalho poderá ser medido, com mais precisão, quando a lei entrar em vigor a partir de dezembro. Atualmente, segundo Deusa, o restaurante trabalha com dois grupos de funcionários e mantém uma organização de folgas que, na avaliação dela, pode facilitar a adaptação.

“É outra incógnita que a gente está vivendo. Não sabemos exatamente como vai ser”, afirma.

A expectativa é de que o faturamento mensal, atualmente na faixa de R$ 380 mil a R$ 400 mil, cresça aproximadamente 10% em novembro e dezembro. A empresária estima que a receita mensal possa chegar a cerca de R$ 440 mil nesse período. Os pacotes para confraternizações, conforme a gestora, incluem cardápios fechados e condições negociadas diretamente com os grupos.

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À frente do restaurante de culinária baiana, Alguidares, a empresária Deusa Prado (foto) ainda não sabe qual será o impacto real no setor com as mudanças previstas para dezembro na carga horária dos profissionais. | Foto: Bruno Werneck

Estabelecimento em Santa Tereza entra no mercado de eventos corporativos

No Estação Cultural Museu Clube da Esquina, em Santa Tereza, na região Leste da Capital, a perspectiva é mais cautelosa. A gestora Virgínia Câmara projeta uma queda de 20% a 30% nas vendas para o consumidor final em relação ao fim de ano de 2025. Entre os fatores apontados estão as incertezas econômicas, as mudanças tributárias e trabalhistas e o ambiente de insegurança entre consumidores e empresas.

Com 11 anos de mercado, o estabelecimento recebe aproximadamente 1,5 mil clientes por mês. Em períodos de fim de ano, o movimento costuma crescer entre 15% e 20%. Em um fim de semana considerado bem-sucedido durante a temporada, a casa chega a receber de 280 a 300 pessoas.

Diante da expectativa de retração, a gestão decidiu ampliar a atuação no mercado corporativo, que ainda está em fase de prospecção. A estratégia inclui a apresentação de um jantar musicado, que reúne gastronomia e apresentações de atores e cantores entre as mesas.

O projeto será apresentado a dez empresas que já confirmaram participação em uma ação de divulgação. A expectativa é conquistar de duas a três empresas até o fim do ano.

Os pacotes corporativos partem de R$ 189 por pessoa, com show e cardápio, e podem chegar a R$ 300, conforme as opções escolhidas. Também há possibilidade de contratação de cardápios e apresentações musicais sem o formato teatral.

“Embora o público turístico ainda represente aproximadamente 75% dos clientes, enxergamos no mercado corporativo uma possibilidade de diversificar as fontes de receita e compensar parte da retração esperada no atendimento ao consumidor final”, destaca.

Restaurantes terão de rever escalas e reforçar equipes em dezembro

Segundo o líder de conteúdo e inteligência da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), José Eduardo Camargo, apesar de o setor manter uma expectativa positiva para as festas de fim de ano, o fator que pode frear os resultados financeiros é o aumento de custos que começa justamente no meio da temporada de festas, com o fim da escala 6×1.

“A partir de 16 de dezembro, a jornada cai de 44 para 42 horas semanais, com duas folgas obrigatórias. Pelas contas da Abrasel, só essa primeira etapa retira cerca de 2,9 milhões de horas de trabalho por semana do setor. Os restaurantes terão de refazer escalas, pagar mais horas extras ou contratar justamente na semana de maior movimento do ano”, destaca.

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Líder de conteúdo e inteligência da Abrasel, José Eduardo Camargo afirma que apenas a primeira etapa do fim da escala 6×1, em dezembro, retira cerca de 2,9 milhões de horas de trabalho por semana do setor. | Foto: Divulgação/ Abrasel

Camargo afirma que a associação estima alta de até 20% no custo com pessoal, o que deve levar a reajustes de preço. Quem mais sente esse cenário, segundo ele, é o consumidor de menor renda. “A orientação ao empresário é montar a escala de dezembro e janeiro agora e conhecer as formas de contratação já previstas em lei, como o intermitente. A Abrasel lançou um guia gratuito para apoiar essa adaptação”, orienta.

Por fim, o executivo destaca que a mão de obra no setor segue como o maior desafio. Faltam profissionais qualificados, e o segmento já disputa trabalhadores com outras atividades. “Muitas casas vão recorrer a contratações temporárias e ao trabalho intermitente para reforçar as equipes. Os custos com alimentos, energia e aluguel continuam pressionados, e manter a qualidade do atendimento com equipes enxutas exige planejamento desde agora”, conclui.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026


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