Viver em Voz Alta

A resiliência da democracia brasileira

País saiu fortalecido das eleições, superando tentativas de sabotagem do direito ao voto

Fustigada e testada sem trégua pelo menos desde 2013, a democracia brasileira saiu fortalecida das eleições realizadas em 25 de outubro, quando a maioria do povo brasileiro elegeu o presidente Lula. Não foi um dia fácil. Muita gente tentou sabotar o direito ao voto (sobretudo dos mais pobres), dificultando a mobilidade urbana e o acesso ao transporte público. O cancelamento de vários voos para o Nordeste também chamou a atenção, despertando uma sensação de desconfiança que ainda não passou. Nada disso, no entanto, foi capaz de superar o incrível espetáculo que presenciamos por todas as partes do país, com destaque para os menores índices de abstenção e de votos nulos e brancos, numa resposta contundente àqueles que costumam qualificar o brasileiro como alguém alienado ou indiferente aos temas políticos.

Nosso processo de votação – um dos mais modernos do mundo – brilhou mais uma vez, dando ao planeta o exemplo de perfeição técnica que várias nações tentam seguir. As urnas eletrônicas completaram, em 2026, três décadas de bons serviços prestados ao Brasil, o que nunca é demais louvar. Sempre saúdo, nessas circunstâncias, o ministro Carlos Mário Velloso, meu colega na Academia Mineira de Letras, que, na qualidade de presidente do TSE em 96, foi o responsável pela implantação da novidade no país.

Sobre a campanha eleitoral, importante sublinhar o quanto as redes sociais e as mídias digitais desempenharam um papel central e o quanto se tornou indispensável a sua regulação, justamente para assegurar que a sua presença na vida nacional se dê a favor do interesse público, sempre subordinada às leis e à Constituição, sem qualquer viés ou favorecimento. Não é aceitável que as plataformas em que elas estão hospedadas – todas pertencentes a empresas estrangeiras – desfrutem de uma condição privilegiada para interferir na formação da opinião pública sem a observância dos limites postos a todos os que pretendem a mesma influência. Tarefa urgente para os legisladores que foram eleitos no começo do mês.

Passado o clima mais emocional da disputa – que acende paixões e estimula, às vezes, posições mais exaltadas – é hora de seguir adiante, com serenidade, mas sem esquecer que o Brasil continuará precisando de nossa mobilização permanente, cidadã, necessária para que possamos aperfeiçoar as bases da nossa convivência coletiva e a qualidade de vida do povo.

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Sobre o autor

Rogério Faria Tavares

Jornalista. Doutor em literatura. Presidente emérito da Academia Mineira de Letras.