Economia para Todos

Desafio de quem vencer

Presidente reeleito pode escolher o ritmo e a forma do ajuste fiscal, mas não pode ignorá-los

O País escolheu sua liderança política para os próximos quatro anos no domingo (25). Olhando em retrospecto, a polarização, mais uma vez, foi a grande vencedora. No segundo turno, as campanhas sugeriam caminhos opostos, mas a lista de problemas que aguarda o vencedor é a mesma.

O primeiro problema é fiscal. O orçamento de 2027 promete superávit de R$ 18,6 bilhões, enquanto a Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta déficit de R$ 86,1 bilhões. A dívida bruta, perto de 83% do PIB, passaria de 100% em 2032. O problema, porém, é que cerca de 92% do limite de despesas já está tomado por gastos obrigatórios, metade da despesa da União acompanha o salário mínimo e os pisos de saúde e educação crescem com a arrecadação. Na prática, cada real a mais de receita vira gasto automático. Sem mexer nesse mecanismo, o que exige emendas constitucionais e negociação com o Congresso, qualquer arcabouço vira promessa.

Essa fragilidade, por óbvio, cobra seu preço nos juros. Com a Selic ainda elevada e boa parte da dívida atrelada a ela, o País paga caro por não ter uma âncora fiscal crível. Juro alto encarece o crédito, trava o investimento e alimenta a própria dívida.

O segundo desafio é a demografia. O IBGE projeta que a população atinja o pico em 2041 e passe a encolher. Os idosos, 15,6% dos brasileiros em 2023, devem ser quase 38% em 2070. Menos gente trabalhando e mais gente aposentada significa pressão crescente sobre a Previdência e a saúde. Uma nova reforma previdenciária não é questão de ideologia, mas de aritmética. Se a força de trabalho deixará de crescer, restará crescer pela produtividade. Aqui está nosso maior atraso: segundo o Conference Board, o brasileiro produz hoje menos do que em 1980. O tema leva à educação, já que no Pisa de 2022 cerca de sete em cada dez alunos ficaram abaixo do nível básico em matemática. Não há produtividade sustentável sem escola que ensine.

Há ainda tarefas já contratadas. A reforma tributária entra na fase decisiva em 2027, com a CBS substituindo PIS e Cofins, e precisa de estabilidade, não de uma reforma da reforma. A segurança pública é outro tópico relevante: o crime organizado avança sobre a economia formal e a PEC da Segurança ainda aguarda o plenário do Senado.

Nenhum desses problemas é de esquerda ou de direita. São restrições da realidade. Lula pode, em seus últimos anos de mandato, escolher o ritmo e a forma do ajuste, mas não pode ignorá-los. Como de praxe, ele será julgado pelo que fizer nos primeiros meses, quando o capital político é maior e as decisões difíceis ainda são possíveis.

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Sobre o autor

Guilherme Almeida

Head de Renda Fixa na Suno. Sócio-fundador da Certifiquei, possui experiência como economista, atuando na gestão e elaboração de pesquisas e análises socioeconômicas. Mestre em Estatística pela UFMG.