Mesmo sem inovar, novo Razão e Sensibilidade reafirma atemporalidade de Jane Austen
O romance de Jane Austen, dado a mim por papai na aurora dos meus quinze anos para um trabalho de escola, foi lido, mas quase virou documento histórico, hibernando em uma gaveta. Recusei a simples passada de olho e passei um apuro. Gostava mesmo era de natação e de jogatina eletrônica.
“Sabe”, ele me disse com uma voz já farta de mim, com os óculos na mão, a olhar o vazio: “Eu tenho olhos ruins. Os teus estão frescos. Leia o mundo como eu fiz. Aproveite”. Ele continuou: “Não li essa edição brasileira, li a original, em inglês, da Thomas Egerton, de Londres. Isso já tem mais de meio século. Quem sabe tu não tomas gosto também?”. Tomei.
A partir daí, virei uma traça. Austen, Orwell, Woolf, Shakespeare. E assim foi.
O novo filme de Georgia Oakley, adaptação do romance de Austen de 1811, traz uma direção de arte que é um deleite para os olhos. É atmosférica, formalmente primorosa, com bons figurinos e fotografia. A condução, pena, é pesada, clichê, caindo no mais do mesmo. Os personagens e o roteiro seguem uma cartilha e são bidimensionais, insistindo em exagerar tanto as figuras quanto suas mentalidades a ponto de torná-las praticamente caricatas.
O principal problema estrutural da maioria dos romances não era como unir os amantes no the end, mas como mantê-los separados até o final. Parte do que torna este Razão e Sensibilidade um forte candidato ao título de adaptação mais fraca de Austen é que a separação de Elinor e Edward apela a folhetinescos e convenientes desencontros. Afinal, qual era a visão inovadora, a ideia original ou o foco diferente que justificava refazer um material que já possui adaptações tão bem-sucedidas?
Não há como melhorar a perfeição, de modo que esta nova versão enfrenta uma batalha árdua. Afinal, há Razão e Sensibilidade (1995), de Ang Lee, com roteiro vencedor do Oscar de Emma Thompson – fita que, três décadas depois, envelheceu como um vinho de safra excepcional.
Neste novo longa, Herbert Nordrum se destaca, apesar da tarefa quase impossível de tentar fazer o público esquecer a atuação de Alan Rickman como o mesmo Coronel Brandon. Mas eu pagaria para ver Emma Thompson, como Elinor Dashwood lendo até uma lista telefônica.
Mas o atestado de óbito da direção vem numa visita à casa de campo. Diante da falsa notícia do casamento de Edward, a heroína solta para o nada: “Continuarei sendo dona de mim mesma”. O texto não confia na atriz, a diretora não confia no público, e o espectador assiste ao cinema explicando a si mesmo o óbvio.
Se você busca um filme de época doce e melancólico, com personagens passando os dedos pela grama, de costas, com planos de cabelos ondulando ao vento e irmãs dando risinhos na cama enquanto seus respectivos interesses amorosos suspiram por elas, a fita vai agradar.
Mas se quer uma releitura significativa de Razão e Sensibilidade, não encontrará nada aqui. Ou é rever o Ang Lee ou, melhor, ler o livro.
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