Perguntas incômodas
Segurança pública foi um dos temas que mais ocuparam espaços durante a campanha eleitoral que chega ao fim. Resposta óbvia dos candidatos às pesquisas de opinião que colocaram o tema entre as principais preocupações dos brasileiros na atualidade. Assim não faltaram promessas fáceis, da construção de prisões em escala industrial passando pela adesão à tese de que o tal crime organizado merece a classificação de terrorismo para chegar ao anúncio da criação de um ministério destinado exclusivamente à causa. Muita conversa e, para resumir da maneira mais simples, pouco, pouquíssimo, material para ser de fato tratado com a seriedade que o tema exige. Até porque não faltou nem mesmo garantia de que roubos de telefones celulares, a depender do que disserem as urnas, em breve serão apenas um capítulo do passado.
Prometer é fácil assim como é ainda mais fácil, contados os votos, esquecer, mudar de assunto e, como nos debates, ignorar perguntas incômodas. Fosse diferente, alguém deveria ter lembrado por exemplo dos roubos de cargas no País, espécie de flagelo para o transporte rodoviário de cargas – que responde por cerca de 70% do transporte pesado –, mas que acontece longe dos holofotes e das câmaras presentes no espaço urbano, assim não chamando tanta atenção quanto o trombadinha que rouba um telefone e foge correndo.
Mas estatísticas do Ministério da Justiça nos lembram que apenas no Rio de Janeiro, entre os meses de janeiro e agosto foram registradas 2.566 ocorrências, ficando São Paulo com 1.636 registros. No ano, prejuízo de aproximadamente R$ 200 milhões contra R$ 144 milhões em igual período de 2025.
São valores grandes o suficiente para impactar as atividades econômicas, com reflexos negativos na indústria, no comércio e na cadeia de transportes. Tudo isso, diz quem conhece mais a fundo o assunto, pelas mãos do crime organizado que opera também a rede de receptação que se encarrega de pulverizar produtos roubados. Suspeita-se que parte das cargas roubadas possa chegar ao comércio varejista estabelecido e de aparência regular. Outro detalha chama atenção: o Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do Rio de Janeiro apurou que de 168 réus investigados por este tipo de crise 158 eram reincidentes.
Para concluir, assunto de sobra e material mais que suficiente para ações de mais resultados e, no plano do desejável, para que as promessas de políticos sejam pelo menos devolvidas ao espaço do possível.
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