Caminhos sustentáveis

A hidreletricidade e a estabilização do sistema elétrico

Crescimento da modulação da geração afeta a transição energética do País, entre outros fatores
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Ao ler o diagnóstico do Plano da Operação Energética 2026-2030 (PEN 2026), divulgado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), um ponto me chamou especial atenção: o crescimento acelerado da amplitude diária da geração hidrelétrica. Segundo o ONS, a amplitude diária da modulação da geração hidrelétrica atingiu 44,1 GW em 2025, valor 15% superior aos 38,3 GW observados em 2024. Mais significativo ainda é que, já nos primeiros meses de 2026, esse patamar foi superado diversas vezes, alcançando um novo máximo de 46,2 GW.

Mas o que significa essa amplitude diária e por que ela importa?

Trata-se da diferença entre o menor e o maior nível de produção das hidrelétricas ao longo de um mesmo dia. Quanto maior essa amplitude, maior a necessidade de as usinas variarem rapidamente sua geração para acompanhar as oscilações do sistema elétrico.
O principal motivo para o crescimento desse indicador é a expansão das fontes solar e eólica. Em períodos de forte insolação ou ventos intensos, essas fontes atendem parcela crescente da demanda e reduzem a necessidade de geração hidrelétrica. Horas depois, quando o Sol se põe ou o vento perde intensidade, as hidrelétricas precisam elevar rapidamente sua produção. Dessa forma, elas se tornaram a principal fonte de flexibilidade do sistema elétrico brasileiro.

Essa adaptação, apesar de mais rápidas que termelétricas, leva um tempo e acontece sob restrições mecânicas importantes. No final da tarde, quando a geração solar cai e o consumo aumenta, diversas usinas precisam ampliar sua produção quase simultaneamente. Esse movimento, conhecido como rampa de geração, exige elevado grau de coordenação do operador do sistema.

Além disso, quando as hidrelétricas são utilizadas para compensar a variabilidade das renováveis, perde-se capacidade de resposta a contingências, como falhas de equipamentos ou eventos climáticos extremos.

O problema também possui dimensão econômica. As hidrelétricas assumem responsabilidades na estabilização do sistema que implicam em custos crescentes, mas os mecanismos de remuneração não comportam esses custos. Na prática, a menor previsibilidade econômica justamente para os agentes que fornecem a flexibilidade que sustenta o sistema, pode colocar em risco o sistema como um todo.

Por fim, o crescimento da amplitude diária da geração hidrelétrica revela um dos principais desafios da transição energética brasileira, a necessidade de expandir fontes renováveis sem transferir integralmente para as hidrelétricas o ônus de garantir a estabilidade do sistema, nesse sentido a regulação nacional precisa evoluir para preservar essa flexibilidade e permitir, por exemplo, outras fontes de estabilização como o armazenamento.

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Sobre o autor

Paulo Guerra

Diretor de Programas FDC Gestão Pública