O debate de surdos
Debates entre políticos, candidatos em disputas eleitorais e, principalmente, concorrentes à cadeira de presidente da República, é modelo copiado dos Estados Unidos e viabilizado pelo surgimento das redes de alcance nacional. Poderiam ter sido, deveriam ser, mais que elementos de suposto prestígio para emissoras e consequente consolidação de suas audiências, fator decisivo de informação, de aproximação entre candidatos e eleitores, em síntese trabalho jornalístico independente e de primeira linha. Uma perspectiva exaurida, seja por conta do engessamento do próprio debate, que a rigor perde esta condição, seja por conta de manipulações bem mais graves como tentativas – hoje assumidas – de conduzir eleitores conforme preferências que não são necessariamente as suas.
Como em tantas outras situações de grande interesse público, tudo acabou reduzido a um jogo manipulado, de cartas marcadas, assim distanciado da capacidade de produzir conhecimento e informação para adequada orientação de eleitores. Essencialmente nada diferente do que aconteceu no domingo (18), no primeiro debate antes da votação em segundo turno. Menos por conta dos próprios organizadores, que souberam se manter dentro de limites adequados mesmo que tenham permitido alguns desvios de comportamento de um dos candidatos. Muito mais por conta de quem estava no palco, com o compromisso de apresentar seus respectivos programas e propostas, mas preferiram, ou foram levados, ao caminho fácil da mais enfadonha troca de acusações, num ritual que em alguns momentos ultrapassou os limites da bizarrice.
Não se trata exatamente de apontar aqui qual dos dois foi melhor para assim apontar um “vencedor”. Será sempre preferível que o observador atento, sobretudo se livre de paixões extremadas, tenha podido, e apesar das limitações já apontadas, de qualquer forma avaliar, julgar e adiante poder decidir, fazer a melhor escolha. Ainda que não pelo conhecimento de propostas e projetos, de planos de governo, mas quem sabe por conta do silêncio diante de questões cruciais trazidas à baila.
Antes que a semana que antecede a votação de domingo (25), em que os brasileiros estão sendo chamados a fazer escolhas que são de fundamental importância para o futuro de todos, haverá mais um debate e novamente os dois candidatos estarão frente a frente. Nada indica que possa ser diferente, que haja afinal espaço para uma conversa séria, melhor qualificada. Resta assim lamentar a má qualidade e o absoluto vazio da campanha eleitoral que está chegando ao fim. E esperar que, apesar dos pesares, sejamos afinal capazes de escapar, pelo voto, da condição de virtual indigência política.
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