Botox de Currículo: até quando mulheres precisarão esconder a idade para serem aceitas no mundo corporativo?
Semana passada fui surpreendida com uma matéria do site The News que falava sobre uma tendência recente: “o Botox de Currículo”, uma alusão ao Botox Cosmético, procedimento estético utilizado para o rejuvenescimento. A novidade consiste na omissão de certos dados nos currículos e na utilização de IA em fotos de profissionais sêniors, que desejam parecer mais novos, para terem condições de concorrerem à vagas no mundo corporativo.
E como era de se esperar, os dados da pesquisa feita pela PwC e FGV, mostram que esse hábito é mais comum entre as mulheres acima de 45+, cerca de 53% das candidatas afirmam ter dado um “tapinha” no currículo, contra 35% dos homens na mesma faixa etária. E o pior: cerca de 43% dos usuários do “Botox de CV” disseram ter recebido mais convites para entrevista.
Mas vocês podem estar se perguntando? Qual o problema disso? Não seria uma boa estratégia para conseguir um emprego? Sim, até poderia ser. A grande questão é que essa é uma estratégia que corrobora, indiretamente, com o etarismo, em um país que já é extremamente jovencêntrico, apesar de estar envelhecendo a passos largos: até 2050, seremos o sexto país mais velho do mundo. E, além disso, ajuda a reforçar a pressão estética sobre as mulheres, que precisam aparentar eternamente jovens, para serem lidas como produtivas e empregáveis.
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É urgente que se ressignifique culturalmente a velhice feminina. Dados mostram que, nos últimos 5 anos, as empresas lideradas por mulheres, mundialmente, tiveram lucratividade acumulada 10% superior do que as lideradas pelos homens. E devido à maturidade, mulheres 45+ são tão ou mais capazes que mulheres mais jovens, pois têm a seu favor o acúmulo de experiência, a assertividade, e as habilidades sócio emocionais necessárias para assumirem cargos de liderança. Sendo assim, investir em mulheres maduras no quadro laboral representa uma oportunidade. Mas por onde começar?
Separei abaixo quatro dicas para empresas que desejem atuar com essa pauta:
- Traga a conversa da longevidade e do envelhecimento populacional para dentro de casa. É importante que as mulheres mais velhas sintam que têm um ambiente seguro em que podem se apoiar e prosperar.
- Tenha um plano de ação multigeracional. Temos hoje cinco gerações convivendo no ambiente empresarial. E quando bem otimizado esse intercâmbio gera inovação e aumenta a produtividade.
- Revejam o tabu da menopausa. As mulheres hoje vivem mais, investem na sua saúde, e vão viver um terço das suas vidas no climatério, etapa que muito em breve representará a maior parte da vida delas. É preciso que se fale sobre isso.
- Promova mentorias cruzadas entre mulheres de diferentes idades, isso auxilia na criação de redes de apoio, tão necessárias para que as 45+ se sintam em um ambiente seguro.
Uma coisa é certa: enquanto as mulheres tiverem medo de falar abertamente a sua idade e precisarem maquiar os seus currículos para se candidatarem a uma vaga, elas com certeza não vão ser capazes de operarem com toda a sua produtividade, perdem elas e principalmente perde o mercado que não saberá oportunizar todo o potencial que elas têm para entregar.
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