Segurança psicológica também precisa estar no orçamento
Outubro é o mês em que muitas empresas fecham seus orçamentos. Planilhas são revisadas, custos são cortados e cada centavo passa por escrutínio. Nesse cenário, proponho uma reflexão pouco comum nas reuniões de planejamento: onde fica o erro nessa conta?
Fala-se muito, hoje, em segurança psicológica nas organizações. Trata-se do contexto que permite às pessoas correr riscos, ser transparentes e construir relações de confiança sem medo de hostilidade, sempre com foco no propósito que se quer alcançar. Em essência, é o ambiente que autoriza o indivíduo a arriscar pelo bem de todos.
Cruzando os dois temas, a pergunta surge naturalmente. Se nenhum processo é totalmente automatizado e todo processo convive com falhas, por que os orçamentos não reservam espaço para o erro? E mais: por que não transformar essa margem em estratégia de negócio?
A rede Ritz-Carlton oferece uma pista. Ao permitir que cada funcionário gaste até US$ 2 mil para resolver o problema de um hóspede, sem aprovação do líder, a empresa mudou a hotelaria. Há relatos de colaborador que viajou para devolver pessoalmente um notebook esquecido. Parece insustentável, mas a política ajudou a consolidar alguns dos hotéis mais admirados do mundo.
É claro que falamos de um segmento de luxo, distante da realidade da maioria das empresas brasileiras. Mas a lógica inspira: dar autonomia a quem está na ponta, e não apenas aos líderes. São essas pessoas que enxergam problemas que coordenadores e gerentes muitas vezes nem chegam a conhecer.
A própria NR-1, ao tratar dos riscos psicossociais, reforça a participação dos trabalhadores na gestão desses riscos. Quem vive o dia a dia conhece o negócio por dentro. Num mundo em que inteligência artificial, regras e procedimentos falam mais com o cliente do que a solução real do problema, ser bem atendido tornou-se um diferencial competitivo.
Fica, então, o convite: que tal reservar no orçamento um valor para um mês de autonomia da equipe? Não precisa ser US$ 2 mil. Pequenas quantias e pequenos gestos já bastam para revelar quem realmente veste a camisa e representa sua empresa na ponta.
Aposto com você que seu colaborador irá adorar sentir essa autonomia e ser estimulado a se comportar como dono. Não sei se você sabe, mas autonomia é um dos principais drivers do propósito e fator crucial de retenção de talentos.
Não acredite em mim. Teste!!! E se lembrar, conte-me como foi. Vou adorar saber da sua ousadia e experiência.
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