Giro pelo mundo

Da continuidade e futuro

Eleição presidencial teve no xadrez da política global uma percepção diversas para as principais potências globais

Não houve um veículo de comunicação no mundo que não anunciasse a vitória do Lula no pleito 2026 na primeira página. A eleição brasileira interessava a todos porque o Brasil é sim um parceiro político e econômico importante. A eleição teve no xadrez da política global para as potências mundiais uma percepção, de acordo com seus interesses, bem variada. A vitória do hoje foragido candidato da direita era esperada pelos conservadores e a extremamente direita a via como o coroamento de uma tendência segundo a qual o mundo será dominado por políticos dessa vertente. E a maior esperança disso vinha dos EUA, que poderia dizer que acabou a onda de esquerda no quintal deles e que toda a América do Sul seguia a política norte-americana. A China, maior parceiro comercial do Brasil e sustentáculo de nossas reservas cambiais, se sente bem à vontade com a política atual e, mesmo sendo pragmática, tem mais proximidade com Lula do que com candidato da oposição. A UE, com o acordo em implementação, prefere Lula, porque foi no governo dele que o assinou. O Japão é país sereno e prático, mas é interessante observar que Flávio Bolsonaro ganhou disparado de Lula na comunidade brasileira lá. A Rússia nunca fez tantos negócios com o Brasil como neste governo, além de apoio ou neutralidade clara a favor da invasão russa na Ucrânia. E ficou a Argentina, cujo presidente sim, fez campanha para a oposição descaradamente e se negou a cumprimentar o vencedor, ao contrário de centena de chefes de estados e governo que congratularam Lula. Exceção também foi Trump, com seu comentário sem nenhum fundamento sobre a correção do processo eleitoral.

Na eleição anterior, a ansiedade de reconhecer a vitória de Lula foi quebrada minutos depois de anunciados os resultados com telefonemas dos presidentes dos EUA e da França. Agora, bastou a diferença de 4 milhões de votos. A primeira semana ficou por conta do terremoto no mercado financeiro no primeiro dia, já precificado no dia seguinte, junto com a fuga do oponente para os Estados Unidos, deixando seus eleitores e os políticos que o apoiaram órfãos. A oposição, que ganhou maioria nas casas legislativas, terá que se reorganizar e o governo terá facilidade maior para fazer acordos para implementar a agenda.

No exterior existe preocupação igual à de muitos no Brasil: a situação financeira e a política econômica vão exigir muita atenção e ação. No radar entrou também a questão da balança de pagamentos e do endividamento externo. O cenário internacional não é mais céu de brigadeiro, o País está perdendo em competitividade, além de enfrentar uma crise fiscal e juros altos. A pergunta que os interlocutores internacionais fazem é se o quarto mandado de Lula será uma nova versão de algo que precisa ser corrigido com implementação de mudanças, ou uma continuidade. E aí dizem que o risco de a continuidade ser quebrada é grande.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Stefan Salej

Ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), empresário, analista da política internacional e presidente da Slovenian Global Business Network.