Projeto Preserva

A chance de conter o aquecimento também venceu no segundo turno

Os próximos quatro anos serão decisivos para o debate climático global

No tabuleiro dessas eleições, a polarização política lançou suas muitas peças, mas a nossa biodiversidade ficou de fora do jogo, junto com o combate à crise climática. A NDC, sigla em inglês para a contribuição nacionalmente determinada, é a lista as metas que o Brasil assumiu para reduzir o aquecimento e foi ignorada nos debates, manifestações e nas redes sociais. Até o super El Niño também foi esquecido.

É curioso que esses temas não tenham nos tirado o sono, já que todos nós sentimos na pele a crise do clima: ondas de calor, secas, enchentes atingem o país todo e ninguém pode se considerar a salvo. Mais do que nunca, o Brasil precisava de congressistas e governantes comprometidos com a adaptação das cidades, mas elegeu um Congresso ainda mais hostil ao meio ambiente, além de governadores negacionistas em estados que sofreram com os extremos climáticos.

Escolhas políticas podem até atender aos interesses imediatistas de empresas, de setores da indústria e do agronegócio, mas são incoerentes com a beleza das páginas ESG que estampam. Afora isso, o Brasil é o país mais biodiverso do mundo, a Amazônia e nossos outros biomas impactam o planeta, portanto essa é uma discussão maior. É sobre a vida.

Por pouco, teríamos um presidente com um plano de governo sem uma única menção ao aquecimento a poucos anos de um prazo importante para a agenda global. 2030 é um marco para limitar o aumento da temperatura média da Terra e não é uma data aleatória. Mesmo sabendo que o limite de 1,5 °C de aquecimento será ultrapassado, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) mantém esse prazo porque ele funciona como freio de emergência. O planeta vai passar dessa temperatura, mas se cortarmos as emissões pela metade até 2030, conseguiremos limitar esse estouro para que a Terra não esquente a níveis destrutivos e, no futuro, tenha condições de esfriar novamente.

Nós, jornalistas que pesquisam e escrevem sobre meio ambiente, testemunhamos uma versão ainda mais distópica do filme “Não olhe para cima”. Falamos sobre temas que estão pairando sobre nossas cabeças, mas ninguém consegue trazê-los para as escolhas mais elementares do dia a dia. Se para a maioria da população mudar hábitos individuais é difícil e por razões compreensíveis, as nossas ações coletivas deveriam espelhar nossa preocupação com essa casa comum.

Nos anos Bolsonaro, o desmonte ambiental foi visível e o desmatamento disparou. O governo Lula recuperou parte da terra arrasada e o desmatamento chegou à menor taxa da história, basta ver os relatórios do MapBiomas, do Observatório do Clima ou do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. A expectativa é que ele continue nessa direção, mas, agora, terá um Congresso em que a cada dez parlamentares, sete são contra a agenda ambiental.

A chance de continuar contendo o aquecimento venceu, mas teremos anos de luta pela frente, como se estivéssemos em outro filme: “Não olhe para o clima”.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Juliana Perdigão

Diretora do Projeto Preserva, plataforma com foco em meio ambiente e cultura. Jornalista e doutora em Ciência da Informação pela UFMG.


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