Projeto Preserva

El Niño: temporais e calorão exigirão que cidades tirem soluções do papel

Organização Meteorológica Mundial prevê pico do El Niño para o fim de 2026
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As reuniões de planejamento para prevenção a desastres precisam dar lugar à ação efetiva de implementação rapidamente, se a ideia for evitar mais traumas e prejuízos. As previsões globais são de que os padrões de chuva e temperatura vão se alterar mais, com riscos de inundações, secas e calor extremos nos próximos meses.

Em agosto, Belo Horizonte, por exemplo, viveu um prenúncio do que está por vir. A cidade chegou a 35,4 graus, a maior temperatura para agosto em 65 anos de medições. No mesmo dia do recorde de calor caiu um temporal: na Região Oeste foram 54,4 mm em apenas duas horas. Os extremos em um espaço de poucas horas nos testam, acendem o alerta e deveriam nos empurrar para a ação.

O fato é que estamos em ano de El Niño, fenômeno natural em que as águas do oceano se aquecem acima do normal. Junto a isso, estamos vivendo também a crise climática, que se caracteriza por variações extremas do clima, causadas pelas atividades humanas. É a ciência quem diz e prova com incansáveis evidências.

Depois de anunciar que o aquecimento global vai ultrapassar o limite de 1,5 grau, a ONU emitiu mais um alerta, desta vez, a partir da previsão da OMM, a Organização Meteorológica Mundial: o El Niño vai se intensificar nos próximos meses, “com severos impactos nos padrões de precipitação e temperatura”. O pico de intensidade será no final deste ano e “os riscos elevados de secas, inundações e ondas de calor extremo se estenderão ao longo de 2027”.

Especialmente agora, causa arrepios a lembrança do estudo da USP que mostrou que mais de 85% das cidades do País não têm planos ou instrumentos legais para enfrentar os extremos climáticos. Porém, quem tem planos precisa tirá-los do papel. Belo Horizonte aprovou a lei que cria o programa Cidade Esponja para incorporar soluções que complementem a drenagem convencional.

O programa prevê medidas para reter a água da chuva lentamente pelo solo, em vez de deixar escorrer para bueiros e galerias. Os pavimentos permeáveis usam materiais que absorvem a chuva, os telhados verdes cobrem os prédios com vegetação que ajuda a reter a água e resfria o ambiente, as bacias de contenção são reservatórios que seguram o excesso de chuva e liberam de forma controlada. E os bueiros ecológicos têm ralos e bocas de lobo que capturam os resíduos das ruas antes que entupam as galerias.

Aprovar a lei foi importante, mas é só o primeiro passo. É preciso regulamentar e definir: onde as soluções serão implementadas, qual será o cronograma, quanto será investido, quais serão as ações prioritárias e como isso será incorporado ao licenciamento e às obras urbanas.

E a implementação não pode esperar. Tirar do papel não é simples e, por isso mesmo, precisa ser tarefa prioritária, conduzida por um grupo técnico e multidisciplinar que defina metas e mecanismos de acompanhamento. As consequências da demora serão sentidas em todos os setores de uma cidade. Da infraestrutura à rede de saúde. Estamos diante de uma mudança no padrão climático e isso exige que as cidades mudem a forma como constroem e como respondem aos desafios.

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Sobre o autor

Juliana Perdigão

Diretora do Projeto Preserva, plataforma com foco em meio ambiente e cultura. Jornalista e doutora em Ciência da Informação pela UFMG.

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