Vinho da Casa

Setembro traz a Primavera com seus cheiros que invadem o ar

É pelo olfato que o vinho revela uma parte importante de sua personalidade. Muitos deles remetem a flores
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Flores, cores e, principalmente, aromas. Setembro é um mês especialmente colorido e muito aromático. É a chegada da primavera com seus cheiros, que invadem o ar. E é justamente pelo olfato que o vinho revela uma parte importante de sua personalidade. Todo rótulo tem seu próprio aroma, e muitos deles remetem a flores.

Não porque elas estejam literalmente dentro do vinho, mas porque a bebida reúne centenas de compostos voláteis. Alguns já estão presentes na uva, outros são formados durante a fermentação e há ainda aqueles que surgem ou se transformam ao longo do envelhecimento. Dessa combinação nasce boa parte da complexidade aromática do vinho.

Nos brancos, compostos naturais da uva contribuem para uma ampla gama de aromas florais. O Torrontés, muito associado à Argentina, pode lembrar pétalas de rosas e gerânios. A Gewürztraminer, uma das variedades emblemáticas da Alsácia e da Alemanha, costuma apresentar notas de rosa. Já o Muscat Blanc – presente no blend de muitos espumantes nacionais – pode remeter à flor de laranjeira e à madressilva.

Nos tintos, o repertório inclui com frequência frutas vermelhas e negras, mas também aromas herbáceos, de especiarias, como pimenta e canela, e florais. A violeta, por exemplo, pode aparecer em variedades como Petit Verdot e Touriga Nacional, e é certeira no blend bordalês (Merlot, Cabernet Sauvignon e Franc), replicado com frequência.

Os rosés transitam entre esses universos e trazem, além das frutas vermelhas frescas, pétalas de rosas.

E o lugar onde a uva nasce — o tão falado terroir — interfere no aroma do vinho?

Plantação de uvas
Foto: Divulgação

Sim, mas não como se o solo transferisse diretamente seu perfume para a garrafa. A influência é mais complexa. Temperatura, luminosidade, disponibilidade de água, altitude, composição do solo e microclima interferem no desenvolvimento da videira e na formação e preservação dos compostos dos aromas.

Na Sauvignon Blanc, por exemplo, as metoxipirazinas podem contribuir para algo que lembra pimentão verde, folhas e ervas. A concentração desses compostos é influenciada, entre outros fatores, pela exposição dos cachos ao sol. Uvas mais protegidas da luz podem apresentar concentrações maiores.

Outro elemento importante nessa construção aromática é a madeira. Em regiões tradicionais como Rioja, na Espanha, o envelhecimento em carvalho pode acrescentar aromas que remetem à baunilha, ao coco, ao tostado e às especiarias.

Com o tempo, o vinho continua mudando. Novas transformações químicas podem trazer aromas que lembram tabaco, couro, chocolate e especiarias.

E há ainda um dos mais curiosos do mundo do vinho: o petróleo.

Alguns Rieslings, especialmente com a evolução, podem desenvolver uma nota que lembra querosene ou gasolina. Ela está relacionada à transformação de compostos derivados de pigmentos presentes naturalmente na uva. Ao longo do envelhecimento, essas transformações podem originar moléculas responsáveis pelo característico aroma de petróleo.

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Sobre o autor

Marcelle Justo

Jornalista especialista em vinhos. Tem a certificação inglesa Wine & Spirit Education Trust (WSet 2); fez a formação profissional da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-Rio) e cursou Introdução à Enologia no Senac-Rio.

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