No limiar do abismo
Quando estourou o escândalo do Banco Master, em novembro do ano passado, imaginou-se, num primeiro momento, que poderiam ter ocorrido desvios da ordem de R$ 10 bilhões de reais, os mais graves deles associados ao Banco de Brasília. Em pouco tempo, investigações conduzidas pela Polícia Federal deixaram claro que o País poderia estar diante de desvios de proporções nunca antes alcançadas pelos ditos “criminosos de colarinho branco”. Da mesma forma que foi de pronto percebida a ardilosa montagem de uma teia de proteção que começava dentro do próprio Banco Central, com cumplicidade e proteção de diretores da instituição, para alcançar, a rigor, os mais altos escalões da administração pública. Para os observadores mais atentos em Brasília, o bastante para alertarem que se as apurações em andamento fossem às últimas consequências as instituições republicanas correriam sério risco de não ter como continuar de pé.
Dez meses depois, pouco mais pouco menos, as previsões mais sombrias, ou catastróficas, ganham proporções que ainda assim até há pouco pareciam inimagináveis. E tudo, como se não bastassem os próprios delitos que vieram a público e as inúmeras tentativas de ocultá-los, protegendo seus autores, por caminhos um tanto tortuosos. Para produzir acusações que atingem frontalmente integrantes do Supremo Tribunal Federal, da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal, tendo à frente o ministro Alexandre de Moraes, todos aparentemente alcançados pelos tentáculos do banqueiro Daniel Vorcaro. Fatos objetivos que não perdem relevância mesmo diante da hipótese de que tenham ocorrido vazamentos seletivos, de conveniência, e para piorar patrocinados por gente interessada sobretudo em interferir nos rumos do processo eleitoral.
A rigor, nada que mereça sequer a classificação de novidade ou, conforme dito acima, possa ser enquadrado no rol das surpresas. Certo é que o buraco está sendo cavado mais fundo, colocando o País diante de abismo sem equivalência no passado. Mesmo para quem se lembre do mar de lama, na realidade um mar de mentiras e de movimentos obscuros que esbarraram – e apenas temporariamente – no suicídio do então presidente Getúlio Vargas.
Não há como modificar a realidade, sequer as aparências conforme os interesses, ambições e conveniências a defender. Cabe sim, compreender afinal a gravidade da situação a que o País está sendo levado, claramente no limiar de um abismo institucional cujo fundo não pode ser nem mesmo enxergado. Tudo quem sabe apenas para lembrar que o erro essencial, pelo qual estamos pagando preço altíssimo, tenha sido abandonar a ideia de uma grande reforma política, que um dia foi apontada como essencial à sobrevivência da República e da democracia.
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