O lado decadente do propósito
Toda empresa hoje sabe falar a língua do propósito. Sabe citar felicidade, sustentabilidade, inovação, cuidado com as pessoas. Mas por trás de cada CNPJ que discursa bonito existem CPFs, pessoas de carne e osso, que decidem como se trata gente, como se distribui poder, como se organiza o próprio tempo. E é no CPF, não no CNPJ, que a falência aparece primeiro.
Outro dia vi as fotos de um evento sobre “liderança consciente” organizado por uma escola de negócios de altíssima reputação. Discurso cheio de palavras bonitas sobre propósito e consciência. Só que bastava olhar os rostos no palco, ler as legendas, para perceber que ali não havia consciência nenhuma sendo exercitada de fato, só um vocabulário emprestado, uma elite que privilegia a sua própria rede, repetindo em painel bonito, sem que ninguém tivesse parado para viver aquilo na própria rotina.
O repertório de cenas constrangedoras não para por aí.
Tem o vídeo institucional em que o executivo fala de felicidade com a cara mais cansada do mundo. Tem o CEO que discursa sobre salvar a natureza enquanto ele mesmo perdeu parte da visão de um olho de tanto trabalhar sem parar, prova ambulante de que a empresa que ele dirige não pratica com as pessoas o cuidado que promete ao planeta.
Tem também o discurso vegano e consciente empacotado em produto que custa o olho da cara, vendido como escolha ética para quem já tem sobra no bolso, enquanto o funcionário que embala essas caixinhas bonitas nem de longe ganha o suficiente para comprar o que ajuda a produzir.
Tem o consultor que fatura milhões ensinando ESG em escola executiva de ponta e atravessa um pedinte na calçada sem olhar para o lado, e que só abre oportunidade para quem já frequenta a sala da própria casa, o círculo de sempre, reciclado com verniz de meritocracia.
Tem os fundadores da ONG voltada para mulheres que constrói discurso de acolhimento e escuta, mas não escuta de fato as próprias mulheres que a organização diz representar, decide por elas, fala por elas, e segue sem abrir um canal real de conversa. Não é falta de vocabulário. É que ninguém nessas cenas parou para viver, na própria rotina, o que prega no palco.
O curioso é que o público já percebeu isso. É esse descompasso entre o microfone e a conduta que faz o evento soar falso, não porque o tema seja ilegítimo, mas porque quem o discursa é, ele mesmo, prova viva do problema que diz combater. Não adianta o crachá dizer “propósito” se o comportamento, longe das câmeras, continua o mesmo de sempre: jornada que adoece, mesa que não escuta quem discorda, felicidade que só existe no roteiro do vídeo institucional.
Vale dizer: essas são exceções, não a regra, a maioria de quem fala de propósito por aí provavelmente tenta, erra, ajusta, segue tentando. Mas a coluna de hoje é dedicada justamente a quem não tenta, e por isso talvez valha a pena todo mundo fazer uma pausa e recalcular a rota antes de continuar discursando. Talvez não falte conteúdo, de conteúdo o mercado está cheio, ninguém carece de mais um curso, mais um framework, mais uma palestra bem produzida. O que falta é presença: parar de tempos em tempos, olhar para a própria rotina e perguntar se o que se prega no palco sobrevive fora dele.
E há um motivo pouco confessado para essa distância nunca se fechar: liderar gente distraída é mais fácil e mais confortável do que liderar gente desperta. Gente distraída aplaude o discurso e não cobra coerência. Gente desperta pergunta, compara, exige. Por isso, no fundo, falta interesse genuíno em mudar essa lógica, porque manter a plateia entretida custa muito menos do que se deixar realmente incomodar por ela.
A saída não é institucional, é pessoal, e por isso incomoda tanto, portanto antes de mudar o mundo, dê três voltas na sua casa. Vamos voltar para o básico e eu também farei minhas reflexões aqui e irei refletir sobre minhas próprias falácias.
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