Inovação em Pauta

R$ 2,3 bilhões em infraestrutura de IA: e a sua empresa, tem projeto?

Mais do investir em hardware, a soberania digital passa pela construção de uma demanda qualificada
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Na última semana, o governo federal oficializou a nova fase do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e publicou o edital de aquisição do maior supercomputador de IA já contratado no país: R$ 959 milhões por uma máquina de 7.200 petaflops (unidade de medida que indica a velocidade de processamento de um computador), a ser instalada no Parque Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba (RN), sob operação do Laboratório Nacional de Computação Científica – LNCC em articulação com a UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). As propostas serão apresentadas em 8 de outubro. Para dimensionar o salto, o Santos Dumont, hoje a máquina mais potente em operação no Brasil, entrega 27 petaflops.

O pacote soma pouco mais de R$ 2,3 bilhões do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e prevê ainda R$ 1,27 bilhão em quatro anos para um centro de computação avançada no Rio de Janeiro, R$ 125 milhões para chips de arquitetura aberta em parceria com a Espanha e a capacitação de cinco mil profissionais em cinco anos. O argumento central foi dado pela ministra Luciana Santos: cerca de 60% do processamento de inteligência artificial brasileira ocorre hoje fora do país.

Minas Gerais também está no pacote. São R$ 50 milhões em dois anos para o Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, sediado na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), dedicado a auditoria de algoritmos, avaliação de riscos, identificação de vieses e apoio à formulação de políticas públicas. O estado não entra apenas como usuário da nova infraestrutura, entra como a instância científica que ajudará a definir os padrões pelos quais sistemas de IA serão considerados confiáveis no Brasil. Para as empresas mineiras, isso significa proximidade com quem está escrevendo as regras de auditabilidade que o mercado terá de cumprir.

Ainda assim, a leitura estratégica exige um passo além da manchete. Infraestrutura é condição necessária, não suficiente. Capacidade computacional ociosa não gera inovação, gera custo de manutenção. O que converte petaflops em produto, patente e receita é uma carteira robusta de projetos empresariais de pesquisa e desenvolvimento com risco tecnológico real. Esse é o elo mais frágil da cadeia brasileira.

E aqui a agenda pública oferece resposta com data marcada. A Rodada 2 do Finep Mais Inovação Brasil mantém aberto o edital de Tecnologias Digitais, com R$ 300 milhões em subvenção econômica em cinco linhas: pilha de IA nacional, GPU clouds, robótica avançada com IA, proteção digital de crianças e adolescentes e tecnologias quânticas. São projetos com risco tecnológico, com ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia) parceira obrigatória e submissão em fluxo contínuo até 30 de setembro, sujeita a encerramento antecipado por esgotamento de recursos. Boa parte das demais chamadas da mesma rodada encerra em 31 de agosto, ou seja, nesta semana.

Soberania digital não se decreta com hardware. Constrói-se com demanda qualificada. Minas sai deste anúncio com um ativo raro, a instituição que ajudará a definir em que condições a IA brasileira pode ser considerada confiável. Enquanto o país monta a máquina, cabe às empresas montar os projetos que darão sentido a ela. Grande oportunidade para as empresas mineiras.

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Sobre o autor

Janayna Bhering

Engenheira, mestre em Ciência e Tecnologia, doutoranda em inovação, com mais de 20 anos de experiência na concepção, estruturação e execução de projetos inovadores em diferentes setores da economia. Especialista em fomento e captação de recursos

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