A miséria perpetuada

Avanço do garimpo ilegal na Amazônia expõe desperdício de riquezas, degradação ambiental e atuação do crime organizado
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A miséria perpetuada
Foto: Divulgação

O Brasil que parece não ter tempo ou disposição para pensar no futuro e assim construir um autêntico projeto de construção nacional, tema que deveria estar no centro das discussões face à aproximação das eleições, continua perdendo tempo e oportunidades. Neste rol e sem lugar para dúvidas, merece ser colocada a questão de extração de ouro na Amazônia. Uma empreitada que tem avançado consideravelmente nos últimos anos, porém numa rota de desvios que também se confunde com oportunidades perdidas. Especificamente por conta do garimpo ilegal, com fortes evidências de que esteja associado ao crime organizado e que chama mais atenção por conta dos danos ambientais, na floresta e na malha fluvial, que propriamente pelas repercussões na economia. Ou pelas perdas que igualmente crescem de proporção.

A extração, como regra, se dá clandestinamente, quase sempre em territórios que deveriam estar protegidos por conta de interesses ambientais ou das condições das populações locais. Tudo em condições de extrema precariedade, com exploração de mão de obra em condições sempre precárias. Nada que possa ser avaliado com mínima segurança e assim impedir sobretudo que a produção seja desviada, destino mais provável de pelo menos metade das pouco mais de 100 toneladas que se imagina serem extraídas anualmente.

São perdas e desvios que vão se acumulando com extremo perigo para a população local, mais amplamente para todo o País. E lembrando que as reservas locais, que no imaginário representariam riqueza quase infinita, nunca foram adequadamente avaliadas e prosseguem sendo exploradas de maneira absolutamente precária. Não para gerar riquezas e sim, tristemente, para perpetuar a miséria. Mudar de curso por óbvio significa bem mais que prosseguir no trabalho heroico, mas precário, da Polícia Federal e de organismos como o Ibama. Sim, deter o garimpo ilegal e todos os males a ele associados, mas antes entender que adequada exploração das reservas minerais existentes na Amazônia pode ser o caminho mais curto para a definitiva redenção econômica da região.

O que verdadeiramente não faz sentido é que relevante parcela do território nacional, objeto de explícita cobiça internacional, prossiga entregue à própria sorte. Abandonada e assim entregue, como bem parece ser o caso, à exploração predatória que alimenta o contrabando e as mais variadas formas de desvios. Tudo em proporções tais que permite questionar, e sem exageros, se a própria soberania nacional, sempre lembrada no discurso político, já não teria sido gravemente ferida.

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