Caminhos sustentáveis

A sustentabilidade nos planos de governo dos presidenciáveis

Tema continua distante de ocupar posição verdadeiramente estruturante para a maioria dos candidatos
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Até as últimas eleições presidenciais, a sustentabilidade costumava aparecer como um tema periférico e frequentemente tratado em oposição ao crescimento econômico. No atual pleito, nenhum candidato nega a importância das mudanças climáticas, da transição energética ou da preservação ambiental. Ainda assim, ao analisar o papel que a sustentabilidade ocupa dentro das estratégias de desenvolvimento propostas, percebe-se que a convergência é mais aparente do que real. Na maior parte dos casos, a sustentabilidade continua distante de ocupar posição verdadeiramente estruturante.

O plano de Lula é o que apresenta a maior densidade conceitual. A sustentabilidade reorganiza a estratégia econômica, industrial, científica e internacional do programa. É também o único plano que dialoga explicitamente com a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Seu principal desafio está na forte dependência de coordenação federativa e estatal para transformar essa visão em resultados concretos.

No plano de Caiado, a sustentabilidade exerce papel relevante como componente da competitividade e da soberania nacional. Bioeconomia, mercado de carbono, preservação ambiental e inovação aparecem articulados ao desenvolvimento econômico. O principal ponto fraco é a ausência de alinhamento explícito com os ODS, o que dificulta a articulação institucional e a construção de capacidades compartilhadas entre governo, empresas e sociedade civil.

O plano de Flávio Bolsonaro incorpora temas que há poucos anos seriam improváveis em uma candidatura conservadora, como bioeconomia, mercado de carbono e combate ao desmatamento ilegal. Contudo, a sustentabilidade permanece subordinada à lógica da produtividade e da geração de riqueza. Ela não se converte em eixo estruturador do projeto nacional, funcionando mais como instrumento de crescimento econômico do que como vetor de transformação.

O plano de Zema mantém forte influência liberal, mas reconhece a importância econômica da conservação ambiental. Serviços ambientais, bioeconomia e mercado de carbono aparecem como mecanismos capazes de gerar competitividade e desenvolvimento. Entretanto, o documento praticamente se omite em temas como adaptação climática, resiliência territorial e gestão dos riscos ambientais associados aos eventos extremos.

O plano de Renan Santos é o mais difícil de classificar. Conceitos como hidrogênio verde, energias renováveis, inteligência artificial aplicada ao monitoramento ambiental e terras-raras aparecem em diversos momentos, mas sem formar uma estratégia integrada de sustentabilidade. A lógica predominante continua sendo industrialista e desenvolvimentista, com a agenda ambiental funcionando como suporte para um projeto de poder nacional.

Augusto Cury apresenta a abordagem mais singular ao associar sustentabilidade, qualidade de vida, saúde emocional e desenvolvimento humano. Contudo, o enfoque social acaba se sobrepondo ao ambiental, e a falta de densidade operacional impede que essas ideias se convertam em um programa consistente para enfrentar os desafios climáticos e ecológicos do país.

Embora a sustentabilidade esteja presente em todos os planos, ainda existe um déficit significativo de profundidade programática. Em muitos casos, ela aparece mais como um conjunto de oportunidades econômicas ou exigência retórica do contexto atual do que como um princípio organizador do desenvolvimento. A verdadeira diferença entre os candidatos está menos no reconhecimento da pauta ambiental e mais na capacidade de transformá-la em estratégia concreta de transformação nacional.

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Sobre o autor

Paulo Guerra

Diretor de Programas FDC Gestão Pública

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