Sociedade pós-escassez
Existe um argumento de que estamos rumando para uma sociedade onde tudo será farto e barato, e onde não haverá mais escassez. Neste contexto, o dinheiro reduz de importância e o trabalho precisa ser ressignificado.
Por milênios, a humanidade viveu com uma capacidade produtiva limitada e o crescimento populacional era restrito pela produção de comida, a expectativa de vida era relativamente baixa, e o trabalho humano era duro e com frequência perigoso.
Entretanto, a ciência, a tecnologia e o conhecimento prático foram melhorando as condições de vida ao longo do tempo. O desenvolvimento da agricultura e da metalurgia permitiu a humanidade sair do nível de subsistência da caça e coleta a desenvolver sociedades muito melhores e mais numerosas.
Enquanto uma tribo que vive da caça e coleta tem na ordem de 500 indivíduos, cidades da antiguidade como Babilônia, Atenas, Cartago, Alexandria, Chang’an e Roma tiveram centenas de milhares de indivíduos.
Mas nos últimos 250 anos, o avanço da tecnologia desde a primeira revolução industrial permitiu ainda mais produtividade. As cidades hoje atingem milhões de indivíduos. Nos últimos 100 anos, começamos a ter problemas de obesidade, o que era impensável anteriormente.
Se projetarmos este avanço no futuro, podemos imaginar que haverá um momento dentro poucos séculos onde tudo será tão farto e barato, e que estaremos numa “sociedade pós-escassez”.
Imaginemos um contexto onde todos os objetos físicos são fáceis de obter e, portanto, relativamente baratos, e os serviços em sua maioria são prestados por robôs e inteligências artificiais. Isso equivale a uma sociedade onde todos são classe média alta, ricos ou milionários. Parece sensacional, mas mesmo neste contexto ainda temos algumas fontes de escassez.
A primeira é tempo, pois continuamos a ter 24 horas por dia e temos de escolher o que fazer com este tempo. A sensação de escassez de tempo pode na verdade aumentar, mesmo sem termos de vender nosso tempo por dinheiro, ou pelo menos não tanto tempo vendido por dinheiro.
A segunda é propósito. Mesmo tendo de se preocupar com dinheiro, muitos milionários e herdeiros escolhem ter uma profissão para ter um propósito na vida e uma identidade na sociedade. Estas pessoas escolhem as mais variadas profissões, tais como médicos, professores, físicos, sacerdotes, militares. Raramente escolhem profissões de baixo status social, mas sim aquelas que têm um atributo de propósito e identidade.
O trabalho neste sentido é ressignificado. Ao invés de uma relação capital-trabalho tradicional, surgem relações como fé-trabalho, família-trabalho, propósito-trabalho, voluntariado-trabalho e doação- trabalho.
De certa forma, já estamos trilhando este caminho, ainda que não homogeneamente na sociedade humana. O nível de qualidade de vida subiu muito nos últimos séculos, mas algumas sociedades ainda vivem de maneira muito primitiva tecnologicamente.
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