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Patrick Stewart deixou um legado impressionante no teatro e cinema

Patrick Stewart, o aclamado ator britânico de teatro, cinema e tevê – que transitou com a mesma elegância de Shakespeare à ficção científica mais popularesca -, faleceu no último dia 28, aos 86 anos.

Orgulhoso de ter nascido e crescido em Yorkshire, o condado do norte da Inglaterra que amou até o fim, ele teve uma infância dura em uma casa sem água quente encanada, marcada pelo alcoolismo e pela violência doméstica do pai, uma realidade que ele próprio descreveria, anos mais tarde, no The Guardian, como “quase insuportável”. O refúgio veio na atuação: tinha apenas 12 anos quando um professor de inglês lhe atribuiu o papel de Shylock em O Mercador de Veneza. Livrou-se do sotaque regional, subiu aos palcos profissionalmente dois anos depois e, em 1966, ingressou na prestigiada Royal Shakespeare Company.

Durante 16 anos na companhia, consolidou sua reputação como um dos mais brilhantes atores de sua era e um verdadeiro embaixador da dramaturgia elisabetana para novos públicos. Dos palcos do Old Vic ao comando da Enterprise, ele era a elite daquela geração de 1970. E foi justamente enquanto ministrava uma masterclasses sobre Shakespeare em Los Angeles, a convite de um amigo, que chamou a atenção de um diretor de elenco.

Aos 47 anos já careca, com voz de barítono e a estampa de quem acabou de sair de um ensaio de Hamlet, Stewart foi parar na cabine de Star Trek: A Nova Geração. O contraste era absurdo: um sujeito moldado pelo rigor shakespeariano posto para dialogar com alienígenas de borracha. Foi exatamente essa gravidade solene que salvou a franquia do ridículo e fez do seu Jean-Luc Picard um ícone da ficção científica.

Depois de enfrentar a incômoda sombra do estereótipo pós-Star Trek, ficou intrigado com o convite de Bryan Singer para X-Men (2000). Ali, no alvorecer do domínio da Marvel nas bilheterias, ele se reinventou como o eminente Professor Xavier. Na franquia, contracenou com Ian McKellen, outro “galáctico” da Royal Shakespeare Company que, com o mesmo bom humor e convicção arrebatadora, vestia o uniforme de lycra para interpretar o vilão Magneto.

De Marco Antônio, em Antônio e Cleópatra, a líder mutante telepata, Stewart conferia autoridade a absolutamente tudo o que tocava. Encarnou Macbeth, Otelo e Próspero, conquistando dois prêmios Laurence Olivier (em 1979 e 2009), uma indicação ao Tony, quatro ao Emmy e até um Grammy em 1996 pelo álbum infantil Pedro e o Lobo. Nos intervalos, abastecia a vida com paixões bem terrenas: o Huddersfield Town FC, time inglês de coração, Fórmula 1, apicultura, quebra-cabeças e trabalhos constantes como dublador de games e desenhos animados.

Ao saber da partida do amigo, McKellen o definiu como “o ator mais respeitado e amado de sua geração, em ambos os lados do Atlântico”, arrematando nas redes sociais: “Um homem em quem confiar, para admirar e, no meu caso, amar”.
Falou e disse.

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Sobre o autor

Thiago Barcellos

Cineasta, crítico de cinema e mestre em artes. Pesquisa o cinema a partir das narrativas audiovisuais e de suas construções estéticas e afetivas, com foco na linguagem e na experiência do olhar.


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